Tecnologias Situadas (Situated Technologies): fundamentos semânticos, conceituais e teóricos

De Urb608
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Palavras-chave: tecnologias situadas; computação ubíqua; urbanismo digital; infraestrutura digital; cidade inteligente; mídia locativa; cognição situada; arquitetura responsiva; tecnopolítica; urbanismo informacional.

Resumo

O conceito de tecnologias situadas (situated technologies) emerge da convergência entre arquitetura, urbanismo, computação ubíqua, mídias digitais e teoria da tecnologia. No contexto do projeto Situated Technologies, desenvolvido por Omar Khan, Trebor Scholz e Mark Shepard, o termo "situado" não significa apenas algo localizado em determinado lugar. Refere-se a tecnologias que operam em interação contínua com contextos espaciais, sociais, culturais, ambientais e políticos específicos.

Nessa perspectiva, tecnologias digitais deixam de ser compreendidas como ferramentas abstratas ou universais e passam a ser analisadas como elementos constitutivos das relações entre sujeitos, infraestruturas, ambientes e territórios. O conceito procura compreender como redes digitais, sensores, dispositivos móveis, sistemas georreferenciados e infraestruturas informacionais transformam a experiência do espaço urbano e os modos de habitar, circular, produzir conhecimento e exercer poder.

Entendimento semântico do termo "situado"

No âmbito do projeto Situated Technologies, o termo situado possui pelo menos quatro dimensões semânticas complementares:

Localização

Uma tecnologia situada opera em um lugar específico e depende das condições materiais e espaciais desse lugar para produzir seus efeitos.

A tecnologia não existe apenas como objeto técnico, mas como parte de uma ecologia territorial concreta.

Contextualização

O funcionamento da tecnologia depende de condições locais, práticas sociais, comportamentos, temporalidades e circunstâncias específicas.

Nesse sentido, a informação produzida ou processada por uma tecnologia situada não pode ser completamente separada do contexto onde foi gerada.

Relação

As tecnologias situadas constituem relações entre pessoas, objetos, infraestruturas, ambientes e instituições.

O foco desloca-se do artefato técnico isolado para as redes de interação que ele possibilita ou reorganiza.

Implicação política

Toda tecnologia situada participa de processos de poder, vigilância, governança, inclusão, exclusão, acesso ou controle.

Assim, o termo incorpora uma dimensão crítica que ultrapassa a simples funcionalidade técnica.

Fundamentação conceitual

O projeto Situated Technologies foi concebido para investigar as implicações da computação ubíqua para a arquitetura e o urbanismo. A questão central apresentada pela série é compreender como comunicações móveis, mídias pervasivas, informática ambiental e tecnologias distribuídas transformam:

  • a experiência da cidade;
  • os modos de circulação e interação;
  • a concepção arquitetônica do espaço;
  • as formas de participação social;
  • os regimes de visibilidade e vigilância;
  • as relações entre público e privado.

Segundo a apresentação da série, o objetivo consiste em investigar como ambientes responsivos e sistemas computacionais distribuídos reconfiguram as formas de compreender e produzir o espaço urbano.

Dessa forma, o conceito de "situado" afasta-se de uma visão universalista da tecnologia e aproxima-se de uma compreensão ecológica e relacional dos sistemas técnicos.

Fundamentação teórica

Computação ubíqua

A primeira base teórica do conceito encontra-se na tradição da computação ubíqua, segundo a qual a computação deixa de estar confinada a computadores pessoais e passa a integrar objetos, edifícios, ruas, veículos e infraestruturas urbanas.

Nesse contexto, a cidade torna-se simultaneamente ambiente físico e ambiente informacional.

Cognição situada

Outra referência importante é a teoria da cognição situada, segundo a qual conhecimento e ação não podem ser separados dos contextos sociais, culturais e materiais onde ocorrem.

A cognição é entendida como resultado da interação entre agentes e ambientes, e não como processamento abstrato de informações.

Sob essa perspectiva, tecnologias situadas não apenas processam informações sobre o mundo; elas participam da constituição dos próprios contextos em que conhecimento e ação acontecem.

Arquitetura e urbanismo informacional

O conceito também dialoga com pesquisas sobre arquitetura responsiva, urbanismo digital e cidades informacionais.

Nessa abordagem, edifícios, espaços públicos e infraestruturas passam a incorporar capacidades de monitoramento, memória, comunicação e adaptação.

O espaço deixa de ser compreendido exclusivamente como forma física e passa a ser entendido como uma combinação de materialidades e fluxos informacionais.

Crítica sociotécnica

A série Situated Technologies dedica atenção especial às implicações políticas da digitalização do espaço urbano.

Diversos volumes discutem:

  • privacidade;
  • vigilância;
  • big data;
  • rastreamento geoespacial;
  • internet das coisas;
  • trabalho digital;
  • governança algorítmica;
  • participação pública.

Nesse sentido, o conceito de tecnologia situada aproxima-se de uma crítica das infraestruturas digitais contemporâneas e de seus efeitos sobre a vida urbana.

Síntese interpretativa

O conceito de tecnologias situadas pode ser sintetizado como uma abordagem que compreende os sistemas tecnológicos a partir de suas relações com contextos territoriais concretos.

A tecnologia deixa de ser vista como instrumento neutro e passa a ser entendida como componente ativo de processos sociais, espaciais, culturais e políticos.

Assim, "situado" não significa apenas localizado. Significa:

  • territorialmente inscrito;
  • socialmente produzido;
  • culturalmente condicionado;
  • ambientalmente dependente;
  • politicamente implicado.

A principal contribuição teórica do projeto Situated Technologies consiste em demonstrar que espaço, tecnologia e sociedade não constituem esferas separadas, mas processos mutuamente constitutivos.

Relações com pesquisas contemporâneas

O conceito de tecnologias situadas dialoga diretamente com temas contemporâneos como:

  • Urbanização digital;
  • Infraestruturas ciberfísicas;
  • Internet das Coisas (IoT);
  • Gêmeos digitais;
  • Governança algorítmica;
  • Soberania digital;
  • Tecnodiversidade;
  • Cosmotécnica;
  • Sistemas socioecológicos;
  • Inteligência artificial territorializada.

Nesses debates, o termo "situado" constitui uma crítica à universalização tecnológica e uma defesa da consideração das especificidades territoriais, culturais e ecológicas na concepção dos sistemas técnicos.

Referências

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