Civilização ecológica
Escrito por: Marcelo Maia
Genealogia do termo “civilização ecológica”
Civilização ecológica é a tradução usual de ecological civilization, em inglês, e de 生态文明 (*shēngtài wénmíng*), em chinês. O termo tornou-se uma categoria central do vocabulário político chinês contemporâneo, especialmente na formulação de políticas ambientais, planejamento territorial, transição energética, restauração ecológica e modernização socialista. No entanto, sua genealogia não se limita à China: envolve antecedentes filosófico-culturais chineses, debates ecológicos europeus, formulações marxistas e ecossocialistas, além de sua posterior institucionalização pelo Estado chinês.
A China não criou isoladamente o termo, mas foi o país que lhe conferiu maior densidade política, institucional e geopolítica. A noção passou de conceito intelectual e ambiental para princípio de governo, política pública, norma constitucional, diretriz de planejamento e narrativa internacional de modernização verde.
Síntese conceitual
A expressão civilização ecológica pode ser entendida como uma crítica à civilização industrial baseada no crescimento ilimitado, na exploração intensiva da natureza e na separação entre sociedade e ambiente. No contexto chinês, porém, o termo adquire uma formulação específica: passa a designar a construção de uma sociedade socialista moderna orientada pela harmonia entre humanidade e natureza.
Em termos políticos, a civilização ecológica articula:
- desenvolvimento econômico;
- proteção ambiental;
- planejamento territorial;
- restauração ecológica;
- modernização tecnológica;
- segurança ecológica;
- urbanização verde;
- transição energética;
- governança estatal;
- legitimidade política.
Árvore genealógica do termo
CIVILIZAÇÃO ECOLÓGICA
Ecological civilization | 生态文明 | shēngtài wénmíng
│
├── 1. Antecedentes filosófico-culturais
│ │
│ ├── Tradições chinesas clássicas
│ │ ├── Taoismo
│ │ │ └── Ideia de harmonia entre ser humano, natureza e cosmos.
│ │ │
│ │ ├── Confucionismo
│ │ │ └── Ordem moral, equilíbrio social e responsabilidade governante.
│ │ │
│ │ └── Tian ren he yi
│ │ └── Noção de unidade ou correspondência entre céu, humanidade e natureza.
│ │
│ └── Observação
│ └── Esses antecedentes não correspondem necessariamente ao uso moderno
│ da expressão “civilização ecológica”, mas são frequentemente
│ mobilizados pela China contemporânea para conferir profundidade
│ histórica e cultural ao conceito.
│
├── 2. Formulação moderna fora da China
│ │
│ ├── Crítica ecológica europeia da modernidade industrial
│ │ └── Décadas de 1960 e 1970: crise ambiental, crítica ao crescimento
│ │ ilimitado, crítica ao progresso técnico linear e questionamento
│ │ dos efeitos destrutivos da industrialização.
│ │
│ ├── Iring Fetscher
│ │ ├── Cientista político alemão ligado ao marxismo crítico.
│ │ ├── É frequentemente citado como uma referência importante para a
│ │ │ formulação moderna da expressão “civilização ecológica”.
│ │ └── Sua contribuição associa o termo à crítica da civilização industrial,
│ │ da fé moderna no progresso e da expansão técnica sem limites ecológicos.
│ │
│ └── Sentido nessa etapa
│ └── “Civilização ecológica” aparece como crítica civilizacional:
│ não bastaria proteger a natureza de maneira setorial; seria
│ necessário reorganizar a própria forma de civilização.
│
├── 3. Mediação marxista, soviética e ecossocialista
│ │
│ ├── Marxismo ecológico
│ │ └── Releitura da relação entre produção, natureza, metabolismo social,
│ │ trabalho e limites ambientais.
│ │
│ ├── Debate soviético sobre cultura ecológica
│ │ └── A literatura identifica antecedentes na expressão “cultura ecológica”,
│ │ que circulou em ambientes soviéticos e socialistas antes da consolidação
│ │ chinesa do termo.
│ │
│ └── Transição conceitual
│ └── De “cultura ecológica” para “civilização ecológica”:
│ a questão ambiental deixa de ser apenas comportamento, educação
│ ou consciência ecológica e passa a ser pensada como projeto de
│ organização social, produtiva e estatal.
│
├── 4. Entrada e formulação na China
│ │
│ ├── Anos 1980
│ │ ├── O termo 生态文明, shēngtài wénmíng, passa a circular no debate
│ │ │ intelectual chinês.
│ │ ├── Ye Qianji é frequentemente mencionado como uma das referências
│ │ │ iniciais da formulação chinesa do conceito.
│ │ └── O conceito se conecta a debates sobre agricultura, socialismo,
│ │ cultura ecológica, desenvolvimento e proteção da natureza.
│ │
│ └── Sentido nessa etapa
│ └── A China traduz uma crítica ecológica geral em linguagem compatível
│ com planejamento socialista, modernização nacional, desenvolvimento
│ agrícola e governança territorial.
│
├── 5. Incorporação ao discurso político chinês
│ │
│ ├── Partido Comunista Chinês
│ │ └── A civilização ecológica deixa de ser apenas conceito acadêmico
│ │ e passa a integrar a linguagem programática do Partido.
│ │
│ ├── Hu Jintao
│ │ └── O conceito ganha espaço no discurso oficial associado ao
│ │ desenvolvimento científico, à sociedade harmoniosa e à tentativa
│ │ de corrigir os efeitos ambientais do crescimento acelerado.
│ │
│ └── Mudança de estatuto
│ └── O termo passa de conceito intelectual para princípio político de
│ desenvolvimento.
│
├── 6. Consolidação sob Xi Jinping
│ │
│ ├── Pensamento de Xi Jinping sobre Civilização Ecológica
│ │ └── O conceito é incorporado ao pensamento político oficial de Xi Jinping.
│ │
│ ├── Beautiful China
│ │ └── A “Bela China” funciona como imagem-síntese do projeto de
│ │ modernização ecológica.
│ │
│ ├── Frase-síntese
│ │ └── “Águas límpidas e montanhas verdes são ativos valiosos”,
│ │ frequentemente traduzida em inglês como:
│ │ “lucid waters and lush mountains are invaluable assets”.
│ │
│ └── Sentido nessa etapa
│ └── Civilização ecológica torna-se eixo de governança ambiental,
│ planejamento territorial, transição energética, restauração ecológica,
│ urbanização verde e legitimação política.
│
├── 7. Constitucionalização e institucionalização
│ │
│ ├── Constituição da República Popular da China
│ │ └── A civilização ecológica é incorporada à Constituição chinesa
│ │ nas emendas de 2018.
│ │
│ ├── Planos quinquenais
│ │ └── O conceito passa a orientar metas de desenvolvimento, energia,
│ │ poluição, uso do solo, conservação, proteção ambiental e
│ │ planejamento territorial.
│ │
│ ├── Sistema institucional
│ │ └── Envolve ministérios, governos provinciais, indicadores ambientais,
│ │ fiscalização, zonas ecológicas, cidades-piloto, políticas de baixo
│ │ carbono e instrumentos regulatórios.
│ │
│ └── Sentido nessa etapa
│ └── A civilização ecológica passa a funcionar como tecnologia de Estado:
│ conceito, norma, meta, indicador e narrativa nacional.
│
└── 8. Internacionalização do conceito
│
├── Diplomacia ambiental chinesa
│ └── O termo é usado para apresentar a China como liderança em
│ desenvolvimento verde, transição energética e governança climática.
│
├── Belt and Road Initiative / Nova Rota da Seda
│ └── A linguagem da civilização ecológica aparece associada à ideia de
│ infraestrutura verde, cooperação ambiental, desenvolvimento compartilhado
│ e modernização ecológica.
│
└── Disputa conceitual global
└── O termo passa a concorrer com expressões como:
├── desenvolvimento sustentável;
├── economia verde;
├── transição ecológica;
├── justiça climática;
├── modernização ecológica;
└── decrescimento.
Linha do tempo em markdown
Tradições chinesas clássicas
harmonia ser humano–natureza
│
▼
Crítica europeia da modernidade industrial
Iring Fetscher / ecologia política / marxismo crítico
│
▼
Debates soviéticos e ecossocialistas
cultura ecológica / metabolismo sociedade-natureza
│
▼
China, anos 1980
生态文明 | shēngtài wénmíng
Ye Qianji e debates sobre socialismo, agricultura e ecologia
│
▼
Partido Comunista Chinês
conceito acadêmico torna-se linguagem programática
│
▼
Hu Jintao
desenvolvimento científico / sociedade harmoniosa
│
▼
Xi Jinping
Pensamento sobre Civilização Ecológica / Bela China
│
▼
Constituição e planos quinquenais
conceito vira princípio de Estado
│
▼
Diplomacia global chinesa
civilização ecológica como narrativa internacional de modernização verde
Referências comentadas
Tradições chinesas clássicas
As tradições chinesas clássicas não cunharam a expressão moderna “civilização ecológica”, mas oferecem uma base cultural frequentemente mobilizada pela China contemporânea para sustentar o conceito. A ideia de harmonia entre humanidade e natureza aparece em leituras do taoismo, do confucionismo e da noção de unidade entre céu e humanidade, ou tian ren he yi. No discurso político chinês atual, essa genealogia cultural é usada para apresentar a civilização ecológica não apenas como política ambiental, mas como continuidade de uma visão civilizacional chinesa.
Iring Fetscher e a crítica ecológica da modernidade industrial
Iring Fetscher é citado por parte da literatura recente como uma referência importante para a formulação moderna do conceito de “civilização ecológica”. Sua contribuição se situa no campo da crítica europeia à civilização industrial, ao produtivismo e à crença moderna no progresso técnico ilimitado. Nesse contexto, o termo indica uma mudança mais profunda do que a gestão ambiental: aponta para a necessidade de reorganizar os fundamentos da própria civilização industrial.
Marxismo ecológico, cultura ecológica e ecossocialismo
A genealogia do termo também passa por debates marxistas e socialistas sobre a relação entre produção, natureza e metabolismo social. A noção de “cultura ecológica”, presente em discussões soviéticas e ecossocialistas, pode ser entendida como uma etapa intermediária: desloca a questão ambiental do campo meramente técnico para o campo cultural, ético e político. A passagem para “civilização ecológica” amplia ainda mais o problema, tratando a ecologia como princípio de organização social e estatal.
Ye Qianji e a formulação chinesa nos anos 1980
Na China, o termo 生态文明, ou *shēngtài wénmíng*, passou a circular no debate acadêmico nos anos 1980. Ye Qianji, economista agrícola chinês, é frequentemente mencionado como uma das figuras iniciais associadas à formulação do conceito no contexto chinês. Nessa etapa, a civilização ecológica aparece ligada à agricultura, à proteção da natureza, à transformação da relação sociedade-ambiente e à tentativa de formular um desenvolvimento compatível com princípios socialistas.
Partido Comunista Chinês e mudança de escala política
A incorporação do termo pelo Partido Comunista Chinês alterou seu estatuto. O conceito deixou de ser apenas uma categoria acadêmica ou filosófica e passou a organizar uma linguagem programática de governo. Isso significa que “civilização ecológica” passou a articular política ambiental, planejamento econômico, urbanização, energia, conservação, controle territorial e legitimidade estatal.
Hu Jintao: desenvolvimento científico e sociedade harmoniosa
Durante o período de Hu Jintao, a noção de civilização ecológica ganhou maior presença no discurso oficial chinês. Ela se articulou ao “desenvolvimento científico” e à ideia de “sociedade harmoniosa”. Nesse contexto, o conceito foi mobilizado como resposta aos impactos ambientais do crescimento acelerado e como tentativa de corrigir os desequilíbrios produzidos pela industrialização intensiva.
Xi Jinping: Pensamento sobre Civilização Ecológica e Bela China
Sob Xi Jinping, a civilização ecológica passou a ocupar posição ainda mais central. O conceito foi associado ao “Pensamento de Xi Jinping sobre Civilização Ecológica” e à imagem política da “Bela China”. A frase “águas límpidas e montanhas verdes são ativos valiosos” tornou-se uma síntese do esforço de compatibilizar desenvolvimento, conservação e valor econômico dos sistemas naturais. Nessa fase, a civilização ecológica tornou-se parte da narrativa da modernização chinesa.
Constituição chinesa e institucionalização
Em 2018, a civilização ecológica foi incorporada às emendas constitucionais da República Popular da China. Esse movimento deu ao conceito um estatuto jurídico e institucional mais forte. A partir daí, ele passou a operar como orientação para planos quinquenais, políticas ambientais, metas de baixo carbono, conservação de ecossistemas, controle da poluição, planejamento territorial e construção de indicadores de desempenho governamental.
Internacionalização e disputa conceitual
A civilização ecológica também se tornou parte da diplomacia ambiental chinesa. O termo é usado para apresentar a China como ator relevante na transição energética, na governança climática, na conservação da biodiversidade e na cooperação ambiental internacional. Nesse plano, o conceito disputa espaço com categorias como “desenvolvimento sustentável”, “economia verde”, “transição ecológica”, “modernização ecológica” e “justiça climática”.
Interpretação crítica
A genealogia da civilização ecológica revela um conceito híbrido. Ele combina tradições culturais chinesas, crítica ecológica europeia, debates marxistas, formulações acadêmicas chinesas e institucionalização estatal contemporânea. Por isso, não deve ser entendido como simples sinônimo de sustentabilidade.
A noção chinesa de civilização ecológica é mais ampla e mais política. Ela não se limita à conservação ambiental, mas propõe uma reorganização da modernização. No discurso chinês, a questão ecológica é apresentada como parte da construção de uma nova etapa civilizacional, na qual desenvolvimento econômico, ordenamento territorial, inovação tecnológica e proteção da natureza devem ser coordenados pelo Estado.
Ao mesmo tempo, o conceito deve ser lido criticamente. Por um lado, permite compreender a escala e a centralidade que a questão ambiental adquiriu na política chinesa. Por outro, também funciona como narrativa de legitimação do Estado, projetando internacionalmente uma imagem de liderança verde e de alternativa civilizacional ao modelo ocidental de desenvolvimento.
Síntese final
A China não inventou sozinha o termo “civilização ecológica”, mas foi o país que o transformou em uma categoria estruturante de Estado. A expressão possui antecedentes em debates ecológicos europeus, marxistas, soviéticos e ecossocialistas, além de ressonâncias em tradições filosóficas chinesas. Sua especificidade contemporânea está na apropriação chinesa: o conceito foi institucionalizado como eixo de modernização, planejamento territorial, governança ambiental e diplomacia global.
Em síntese:
A civilização ecológica é uma noção de origem múltipla, mas de institucionalização chinesa. Sua genealogia passa pela crítica ecológica da civilização industrial, pela cultura ecológica socialista, pela formulação acadêmica chinesa dos anos 1980 e pela transformação do conceito em princípio de Estado sob o Partido Comunista Chinês.
Referências
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