Infraestrutura digital situada

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Infraestrutura digital situada: leitura do território entre mídias locativas, feeds algorítmicos, cartografias operacionais e a geografia da técnica

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Resumo

Este artigo propõe e desenvolve o conceito de infraestrutura digital situada (situated digital infrastructure), entendido como o regime sociotécnico em que a mediação digital do território preserva a coincidência entre localização (location), temporalidade (temporality) e situação (situation), mantendo o fluxo informacional parcialmente territorializável. O argumento é construído em três movimentos. No primeiro, o conceito é formulado a partir de dois processos convergentes — a passagem do feed geolocalizado ao feed algorítmico e a transição do mapa impresso às cartografias operacionais —, ancorados na tradição situacionista (Debord), nas mídias locativas (Lemos), na crítica das plataformas (Plantin et al.; Smets et al.) e na teoria das práticas espaciais (Certeau). No segundo, verifica-se a originalidade terminológica do conceito em bases acadêmicas. No terceiro, o conceito é fundamentado teoricamente pela cosmotécnica e pela noção de localidade de Yuk Hui e, sobretudo, pela geografia da técnica de Milton Santos — meio técnico-científico-informacional, verticalidades e horizontalidades, espaços luminosos e opacos e força do lugar. Conclui-se com uma formulação integrada do conceito.


Palavras-chave: infraestrutura digital situada; mídias locativas; curadoria algorítmica; território; cosmotécnica; geografia da técnica.



PARTE I — A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO

1. O problema: como as plataformas reorganizam a leitura do território

O conceito de infraestrutura digital situada é construído a partir de dois movimentos analíticos convergentes: a passagem do feed geolocalizado ao feed algorítmico, de um lado, e a transição do mapa impresso como superfície pública de cointerpretação às interfaces de navegação que prescrevem deslocamentos, de outro. O argumento central é que ambos os processos descrevem a mesma transformação: aquilo que antes era uma leitura situada do território — escolhida, negociada e ancorada em uma posição — torna-se progressivamente uma navegação modulada por infraestruturas digitais não localizadas. O conceito nomeia precisamente a condição de possibilidade — hoje rara e cada vez mais residual — de territorializar parcialmente o fluxo informacional, isto é, de fazer coincidir localização (location), temporalidade (temporality) e situação (situation) em uma mesma superfície de observação.


A pertinência teórica do problema decorre do fato de que as plataformas digitais deixaram de ser meros provedores neutros de serviço para se constituírem como infraestruturas tecnopolíticas que mediam a produção do espaço urbano e a própria percepção do território (PLANTIN, Jean-Christophe; LAGOZE, Carl; EDWARDS, Paul N.; SANDVIG, Christian. Infrastructure studies meet platform studies in the age of Google and Facebook. New Media & Society, v. 20, n. 1, p. 293-310, 2018. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1461444816661553). Quando a articulação entre os estudos de infraestrutura (infrastructure studies) e os estudos de plataforma (platform studies) se desloca para a experiência urbana, o espaço deixa de ser um contêiner passivo e passa a ser produzido como um terreno calculável, modulado por uma geografia algorítmica da atenção (algorithmically modulated attention geography).


2. A deriva situada: o feed geolocalizado como superfície de observação

No início das redes locativas, como no caso do Instagram em seus primeiros anos, ainda era possível operar uma espécie de deriva digital situada. O usuário podia escolher um lugar, um intervalo temporal e acompanhar, quase em tempo real, a emergência de acontecimentos urbanos a partir de múltiplos registros produzidos por sujeitos presentes naquele território. A localização funcionava como critério de recorte, e o fluxo informacional ainda podia ser parcialmente territorializado.


Convém recuperar um experimento concreto de leitura territorial situada. Em 2011, ao acompanhar publicações feitas na Avenida Paulista, era possível permanecer em uma mesma coordenada espacial e temporal e observar, em tempo real, o desenrolar de uma situação específica. Quando uma pessoa publicou a imagem de um atropelamento envolvendo um ciclista, a permanência naquele recorte permitiu acompanhar as postagens subsequentes de outros sujeitos que passavam pelo local, registravam o acontecimento e reagiam a ele. O feed geolocalizado funcionava, nesse caso, como uma superfície situada de observação: uma paisagem informacional localizada, produzida por sujeitos implicados naquele tempo, naquele território e naquela situação.


Essa experiência só é descritível porque as mídias locativas (locative media) podem ser definidas como um conjunto de tecnologias e processos infocomunicacionais cujo conteúdo agrega informação a um local, instaurando aquilo que se convencionou chamar de territórios informacionais (informational territories) — zonas de controle do fluxo informacional digital em um território físico, na interseção entre o espaço urbano e o ciberespaço (LEMOS, André. Mídia locativa e territórios informacionais. In: SANTAELLA, Lucia; ARANTES, Priscila (Orgs.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: EDUC, 2007. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/253452150_Midia_Locativa_e_Territorios_Informacionais_1). O território informacional é exatamente o que permite que a localização opere como critério de recorte da observação.


3. A herança situacionista: deriva, psicogeografia e situação construída

A experiência descrita pode ser aproximada da tradição situacionista, especialmente das noções de deriva (dérive), psicogeografia (psychogeography) e situação construída (constructed situation). Para a Internacional Situacionista, a deriva define-se como uma técnica de passagem ininterrupta através de ambiências variadas, indissociável do reconhecimento de efeitos de natureza psicogeográfica e da afirmação de um comportamento lúdico-construtivo, em oposição às noções clássicas de viagem e passeio (DEBORD, Guy. Teoria da deriva. Internationale Situationniste, n. 2, 1958. Tradução brasileira disponível em: https://www.marxists.org/portugues/debord/1958/12/90.htm). A psicogeografia, por sua vez, apresenta-se como o estudo dos efeitos do ambiente urbano sobre o estado psíquico e afetivo dos sujeitos, tendo na deriva o seu desdobramento prático e metodológico (DEBORD, Guy apud SILVA, Matheus Alcântara Chaparim; OLIVEIRA, Eduardo Romero de. Desafios metodológicos e reflexões na apreensão afetiva da cidade: a deriva como procedimento metodológico. Revista Geografia em Atos, Presidente Prudente, n. 12, v. 5, p. 60-78, 2019. Disponível em: https://revista.fct.unesp.br/index.php/geografiaematos/article/download/6517/pdf/24875).


Ainda que mediada por uma plataforma digital, a observação do feed geolocalizado mantinha uma relação direta com um recorte urbano específico. O usuário não era apenas conduzido por um fluxo abstrato de imagens: escolhia uma localização, permanecia nela e acompanhava a emergência de relações entre corpos, acontecimentos, afetos, comentários e interpretações. Trata-se, portanto, de uma deriva tecnicamente mediada — não necessariamente uma deriva pelo deslocamento físico do corpo, mas uma deriva pela permanência crítica em uma situação urbana informacionalmente expandida. A leitura situacionista da cidade, que propõe a superação do espaço meramente utilitário rumo à reapropriação afetiva do lugar (SOUZA, Diego Tavares de. Guy Debord e a Internacional Situacionista: amparo à geografia na crítica à cidade moderna. Caminhos de Geografia, Uberlândia, 2017. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/caminhosdegeografia/article/view/36252), encontra no território informacional uma reatualização técnica: a situação não é abolida, mas expandida pela camada de registros geolocalizados.


4. A ruptura: do feed geolocalizado ao feed algorítmico

A diferença em relação ao uso contemporâneo das plataformas é decisiva. Hoje, a experiência do feed tende a romper essa continuidade situada. A localização já não aparece como uma escolha precisa do observador diante de um evento, mas como um dado secundário dentro de uma infraestrutura algorítmica que organiza conteúdos segundo critérios opacos de engajamento (engagement), relevância (relevance) e retenção da atenção (attention retention). O usuário é deslocado por temporalidades dispersas, acontecimentos desconectados e espacialidades heterogêneas. Em vez de permanecer em uma situação, ele é conduzido por uma sequência dessituada de fragmentos.


Essa passagem é melhor compreendida quando se reconhece que a curadoria algorítmica (algorithmic curation) não se limita a selecionar conteúdos online, mas opera diretamente sobre a experiência urbana, fazendo da cidade uma nova materialidade de curadoria, atravessada por fluxos informacionais, lógicas de seleção e mediadores algorítmicos (algorithmic mediators) que determinam a quais lugares, tempos e eventos o sujeito será exposto (SMETS, Annelien; BALLON, Pieter; WALRAVENS, Nils. Mediated by code: unpacking algorithmic curation of urban experiences. Media and Communication, v. 9, n. 4, p. 250-259, 2021. Disponível em: https://www.cogitatiopress.com/mediaandcommunication/article/viewFile/4086/2381). Nesse regime, a leitura territorial deixa de ser uma escolha situada do observador e passa a ser uma experiência modulada por uma infraestrutura que decide quais lugares, tempos e eventos serão apresentados, em que ordem e com que intensidade.


A passagem do feed geolocalizado ao feed algorítmico marca, assim, uma transformação importante na leitura digital do território. O primeiro ainda permitia uma apropriação próxima da psicogeografia situacionista, pois possibilitava observar como um acontecimento urbano era percebido, narrado e disputado por sujeitos situados. O segundo tende a dissolver a situação em uma circulação contínua de imagens, na qual o território aparece menos como experiência comum e mais como conteúdo recombinado por máquinas de distribuição da atenção. Vale notar que esse processo é socioespacialmente desigual: algumas áreas tornam-se mais “plataformizadas”, enquanto outras são silenciadas pela própria lógica de visibilidade algorítmica, o que reforça assimetrias informacionais no acesso e na representação do espaço urbano (BARNS, Sarah. Introduction to platform urbanism. In: Handbook of Platform Urbanism. Cheltenham: Edward Elgar, 2025. Disponível em: https://www.elgaronline.com/edcollchap/book/9781035313761/chapter1.xml).


5. A leitura territorial como negociação humano-humano: o mapa impresso como superfície comum

O segundo movimento do argumento desloca-se do feed para a cartografia. O mapa impresso foi, historicamente, um dispositivo privilegiado de leitura do território. Em painéis, oficinas e workshops, a abertura de um mapa em grande escala produzia quase imediatamente um gesto coletivo de localização: cada participante buscava identificar o seu lugar no território representado. Esse movimento não era apenas técnico ou cartográfico, mas também social e político. Ao localizar-se no mapa, cada sujeito passava também a localizar os outros, reconhecendo posições relativas, proximidades, distâncias, caminhos, obstáculos, barreiras e conexões possíveis.


A leitura territorial, nesse contexto, era constituída por uma negociação direta entre humanos. O mapa funcionava como uma superfície comum de mediação, na qual diferentes sujeitos podiam construir correlações espaciais a partir de suas experiências, memórias, trajetórias e interesses. A representação cartográfica não eliminava o conflito, mas oferecia uma base compartilhada para que ele pudesse ser explicitado, discutido e eventualmente negociado. O território era lido a partir de posições situadas, e essas posições se confrontavam em uma mesma superfície de interpretação.


Essa condição encontra ressonância na distinção certeauiana entre o mapa como traçado estratégico e o caminhar como prática enunciativa. Para Michel de Certeau, o ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação está para a língua: o mapa fixa um sistema de possibilidades e proibições, mas é a prática situada dos sujeitos — suas táticas (tactics) frente às estratégias (strategies) do “próprio” — que atualiza e reconfigura o espaço (CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. Resenha e excertos disponíveis em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/download/39612/33165). O mapa comum era, nesse sentido, uma superfície de enunciação coletiva, em que as táticas de cada sujeito permaneciam visíveis e negociáveis para os demais.


6. A automação da negociação espacial: cartografias operacionais e a cadeia humano-dados-máquina-humano

Com a consolidação das infraestruturas digitais, essa condição se altera profundamente. A informação territorial passa a chegar ao usuário de forma densa, dinâmica e carregada de camadas informacionais, muitas vezes processadas por sistemas algorítmicos que operam em tempo real. Aplicativos de navegação e mobilidade, como Waze, Uber e 99, reorganizam a experiência urbana ao coordenar trajetos, tempos de chegada, tempos de saída, velocidades, desvios e fluxos de centenas ou milhares de pessoas simultaneamente. Nesses sistemas, a leitura do território deixa de depender prioritariamente da negociação humano-humano e passa a ser mediada por uma cadeia humano-dados-máquina-humano (human–data–machine–human chain).


Essa transformação desloca a experiência cartográfica de uma superfície pública de cointerpretação para uma infraestrutura operacional de orientação individualizada. O usuário continua se localizando, mas essa localização é agora produzida por dispositivos que calculam, antecipam e prescrevem comportamentos. A cidade passa a ser lida por meio de interfaces que não apenas representam o território, mas também intervêm diretamente na organização dos deslocamentos, distribuindo fluxos, modulando decisões e sincronizando movimentos. Trata-se de um regime de governo urbano que opera segundo lógicas de preempção e antecipação (preemption and anticipation), em que as infraestruturas algorítmicas modelam cenários futuros possíveis e agem sobre eles antes mesmo de sua atualização (LESZCZYNSKI, Agnieszka et al. Platform urbanism: the emergent politics of open data for urban management, 2020. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/329336600_Platform_urbanism_The_emergent_politics_of_open_data_for_urban_management). A negociação espacial, antes realizada entre sujeitos diante de um mapa comum, torna-se progressivamente automatizada por sistemas técnicos que administram relações entre humanos sem que esses humanos precisem necessariamente reconhecer-se, encontrar-se ou negociar entre si.


7. A formulação do conceito

Os dois movimentos — feed e cartografia — convergem para a formulação do conceito de infraestrutura digital situada. Por infraestrutura digital situada entende-se a condição (ou o regime) em que a mediação técnica do território preserva a coincidência entre localização, temporalidade e situação, de modo que o fluxo informacional permaneça parcialmente territorializável e a leitura do espaço continue sendo uma escolha do observador implicado, e não apenas uma prescrição de sistemas opacos de distribuição da atenção. O feed geolocalizado de 2011 e o mapa impresso aberto sobre a mesa de uma oficina são, sob essa ótica, duas figuras da infraestrutura digital situada — ou, no caso do mapa, de uma situacionalidade que a infraestrutura digital herda e tensiona.


O termo é deliberadamente tensionado: ele nomeia, ao mesmo tempo, uma possibilidade técnica e um horizonte normativo. Possibilidade técnica, porque as próprias plataformas dispõem dos recursos de geolocalização e temporalização que permitiriam sustentar leituras situadas. Horizonte normativo, porque a tendência dominante das infraestruturas contemporâneas é justamente a dessituação — a substituição da permanência crítica em uma situação pela condução através de fragmentos espaço-temporalmente dispersos. Reconhecer a infraestrutura digital situada como conceito é, portanto, reconhecer que a territorialização da experiência não é uma propriedade natural das plataformas, mas um efeito que depende de arranjos sociotécnicos específicos — e que pode ser projetado, disputado ou suprimido. Como sugere a leitura sociotécnica das infraestruturas, estas não são meros substratos neutros, mas relações sociomateriais que habilitam práticas de modos determinados (PLANTIN; LAGOZE; EDWARDS; SANDVIG, 2018, https://eprints.lse.ac.uk/67571/1/plantin_Infrastructure_studies.pdf).


A leitura situada do território — seja na deriva situacionista, no feed geolocalizado dos primeiros anos das mídias locativas, ou no mapa impresso como superfície de negociação coletiva — partilhava uma mesma estrutura: a coincidência entre um lugar, um tempo e uma situação observável a partir de posições implicadas. A consolidação das infraestruturas digitais contemporâneas tende a dissolver essa coincidência em três frentes simultâneas: temporal (temporalidades dispersas no feed algorítmico), espacial (espacialidades opacas e individualizadas nas cartografias operacionais) e relacional (substituição da negociação humano-humano pela cadeia humano-dados-máquina-humano). O conceito de infraestrutura digital situada serve, então, como instrumento analítico e crítico: permite distinguir, no interior de um mesmo aparato técnico, os regimes que sustentam a situação daqueles que a dissolvem, e oferece um vocabulário para disputar o desenho das plataformas em favor de uma leitura territorial novamente situada.


PARTE II — ORIGINALIDADE TERMINOLÓGICA

8. O termo na literatura acadêmica: verificação

Uma vez formulado o conceito, impõe-se verificar se o termo “infraestrutura digital situada” já é empregado na literatura e, em caso afirmativo, se com sentido coerente. A busca foi conduzida em português (“infraestrutura digital situada”) e em inglês (“situated digital infrastructure”, “situated infrastructures”), além de variantes correlatas, em bases e repositórios acadêmicos (SciELO, periódicos universitários, SAGE, ScienceDirect, Cogitatio, repositórios institucionais).


O termo não existe como conceito consolidado na literatura acadêmica. Não foi localizada nenhuma ocorrência em que o sintagma funcione como termo técnico estabilizado, com definição própria, em revista científica ou base indexada. As ocorrências distribuem-se em dois campos semânticos distintos, e nenhum deles coincide com o conceito aqui elaborado:


Primeiro, “infraestrutura digital” em sentido técnico-operacional ou político-administrativo — refere-se ao substrato material e organizacional (hardware, redes, nuvem, data centers, conectividade) ou às Digital Public Infrastructures (DPI). Quando “situada” aparece, é adjetivo circunstancial (“abordagem situada na interseção de tecnologia, governança e ecossistemas locais”), não qualificador conceitual.


Segundo, “situado” como conceito autônomo e denso em outras genealogiassituated knowledges (HARAWAY, Donna. Situated knowledges: the science question in feminism and the privilege of partial perspective. Feminist Studies, v. 14, n. 3, 1988. Disponível em: https://commons.princeton.edu/hum583-f21/wp-content/uploads/sites/283/2021/08/Haraway-Situated-Knowledges.pdf), situated action (SUCHMAN, Lucy. Plans and situated actions. Cambridge: Cambridge University Press, 1987) e a leitura sociotécnica de infraestrutura (Plantin et al.). Aqui o termo carrega valor epistemológico forte (perspectiva parcial, corporificada, contextual), mas nunca foi acoplado a “infraestrutura digital” para nomear a coincidência entre lugar, tempo e situação na leitura do território.


Conclui-se que o conceito é, até onde a busca alcança, terminologicamente original. Isso é uma oportunidade (espaço conceitual a ocupar), mas impõe um ônus: o conceito precisa ser definido com rigor e ancorado nas genealogias de “situado”, para não ser confundido com o sentido técnico-operacional dominante de “infraestrutura digital”.


9. Quadro comparativo das referências e análise semântica

Referência (resumida) Como o termo / raiz é usado Coerência com o conceito


ITS Rio (2024), DPIs “Infraestrutura digital” = provisão pública de serviços; “situada” é adjetivo circunstancial. Baixa / divergente. Foco em governança, não em leitura do território.


TIVIT (2024) “Infraestrutura digital” técnico-corporativa (hardware, nuvem). Nula / oposta. Sentido que o conceito busca não evocar.


Plantin et al. (2018) Infraestrutura como relação sociomaterial; “situate” como verbo metodológico. Parcial / adjacente. Fundamenta a dimensão “infraestrutura”, não a “situação”.


Smets, Ballon e Walravens (2021) Curadoria algorítmica da experiência urbana. Alta no diagnóstico, divergente no termo. Descreve a dessituação, não a nomeia.


Haraway (1988) “Situated” = saber parcial, corporificado; crítica ao “god trick”. Genealógica. Fornece a carga semântica de “situado”.


Suchman (1987) “Situated action” = ação dependente de circunstâncias concretas. Genealógica / produtiva. Contrapõe situação a plano abstrato.


Lemos (2007) “Território informacional” = territorialização do fluxo digital. Alta proximidade, termo diferente. Antecedente brasileiro mais próximo.


A comparação revela três posições. O polo técnico-operacional (ITS Rio, TIVIT) está em distância semântica máxima: a infraestrutura é o que se quer tornar invisível e funcional, ao passo que no conceito ela é problematizada como aquilo que condiciona a leitura do território. O polo dos estudos críticos de plataforma (Plantin et al.; Smets et al.) converge fortemente no diagnóstico — plataformas como infraestruturas, curadoria algorítmica modulando a experiência urbana — mas diverge no vocabulário: nenhum autor cunha o termo nem nomeia a condição positiva (a situação preservada). O polo genealógico de “situado” (Haraway, Suchman, Lemos) fornece a densidade do adjetivo e o antecedente espacial, mas não compõe o termo. O conceito realiza precisamente essa síntese inédita: acopla a carga epistemológica de “situado” à leitura sociotécnica de “infraestrutura digital”, aplicando-a à territorialização do fluxo informacional.



PARTE III — FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA AMPLIADA

A originalidade terminológica não dispensa, mas exige, ancoragem teórica robusta. Duas tradições oferecem essa ancoragem: a filosofia da técnica de Yuk Hui, que fornece o horizonte cosmopolítico, e a geografia da técnica de Milton Santos, que fornece o aparato analítico operacional.


10. Yuk Hui: cosmotécnica, localidade e o limite crítico do conceito

Em Tecnodiversidade, Yuk Hui define cosmotécnica (cosmotechnics) como “a unificação do cosmos e da moral por meio das atividades técnicas, sejam elas da criação de produtos ou de obras de arte” (HUI, 2020). A tese central é que não existe uma técnica universal e singular, mas múltiplas cosmotécnicas, variáveis por cultura. A localidade (locality) é o operador que sustenta essa multiplicidade: “de um ponto de vista cosmotécnico, a técnica é, em essência, motivada e limitada por especificidades geográficas e cosmológicas” (HUI, 2020). Em entrevista, Hui explicita que a cosmotécnica “levanta imediatamente a questão da localidade”, entendida como a busca por lugares que permitam à tecnologia diferenciar-se de uma lógica universalizante (HUI, Yuk. From the universality of progress to cosmotechnics. Entrevista. Autonomies, 2021. Disponível em: https://autonomies.org/2021/09/yuk-hui-from-the-universality-of-progress-to-cosmotechnics/).


Dois pontos são decisivos. Primeiro, a localidade de Hui não é meramente geográfica: é simultaneamente geográfica, cosmológica e epistemológica. Segundo, Hui adverte que a localidade é um conceito perigoso: quando não abordada de maneira dialética, pode degenerar em “nacionalismo, essencialismo cultural e etnofuturismo” (HUI, 2020). A localidade não é refúgio identitário, mas estratégia de resistência ao “eixo de tempo global” da sincronização moderna.


Há na obra um trecho que torna a correlação quase literal. Ao discutir a ecologia das máquinas, Hui descreve uma governamentalidade “molecular” em que “cada ser humano é tratado como um indivíduo […] constantemente capturada e capitalizada na forma de dados”, e afirma que “o urbanismo digital que está em processo de desenvolvimento […] é movido pelo uso recursivo dos dados” (HUI, 2020). Essa passagem descreve, em vocabulário cosmotécnico, exatamente a dessituação: o feed algorítmico e a cartografia operacional são instâncias do urbanismo digital recursivo que enfraquece “a necessidade de localidade e diversidade em função de uma insistência na episteme universal e no conceito de progresso” (HUI, 2020).


Disso decorrem três contribuições de Hui ao conceito: (i) um fundamento cosmopolítico, que eleva a infraestrutura digital situada acima de uma mera crítica de usabilidade de plataformas; (ii) uma advertência crítica indispensável — assim como a localidade de Hui é dialética (abre para o cosmos, não fecha sobre o Volk), o “situado” do conceito deve ser entendido como perspectiva parcial e relacional, à maneira de Haraway, e não como enraizamento identitário; e (iii) um vocabulário (tecnodiversidade, bifurcação, sincronização) para nomear o que está politicamente em jogo na dessituação.


Nota de recepção. A aproximação entre Hui e o pensamento brasileiro (Milton Santos, Álvaro Vieira Pinto, Muniz Sodré) é uma construção da literatura nacional recente — por exemplo, FANFA (2024) —, e não uma filiação estabelecida pelo próprio Hui, que não cita esses autores em Tecnodiversidade nem no ensaio Cosmotechnics as Cosmopolitics (HUI, 2017).


11. Quadro comparativo: localidade (Hui) × situado (conceito)

Dimensão Localidade (Yuk Hui) Situado (infraestrutura digital situada)


Definição nuclear Especificidade geográfica e cosmológica que motiva e limita a técnica; condição da multiplicidade de cosmotécnicas. Coincidência entre localização, temporalidade e situação que mantém o fluxo informacional territorializável e a leitura como escolha do observador implicado.


Adversário O “eixo de tempo global”, a sincronização, a episteme universal. A dessituação: a infraestrutura algorítmica que dissolve a situação em fragmentos.


Natureza Ontológica, cosmológica e epistemológica. Sociotécnica e fenomenológica.


Escala Civilizacional e planetária. Urbana e infocomunicacional.


Raiz teórica Heidegger (crítica), Simondon, virada ontológica, confucionismo (chi–tao). Haraway, Suchman, Lemos, Plantin et al.


Risco a evitar Nacionalismo, essencialismo cultural, etnofuturismo. Romantização do território fechado; confusão com o sentido técnico de “infraestrutura digital”.


Função política Reapropriação da técnica; bifurcação de futuros. Disputar o desenho das plataformas por uma leitura situada.


As duas noções são aproximáveis, com mediação. Há homologia funcional clara: ambas resistem ao universal homogeneizante e recusam a “visão de lugar nenhum”. Mas a localidade de Hui é mais ampla (cosmológica, civilizacional) que o “situado” (fenomenológico, urbano). A mediação adequada: o “situado” do conceito é a expressão infocomunicacional e urbana da “localidade” cosmotécnica. A localidade fornece o horizonte cosmopolítico; o situado, a operacionalização analítica num domínio delimitado.


12. Milton Santos: a contribuição geográfica decisiva

Se Hui oferece o horizonte cosmopolítico, é a geografia de Milton Santos que fornece o instrumental conceitual mais diretamente aplicável — porque Santos pensou explicitamente a relação entre técnica, informação e território, e o fez de uma perspectiva do Sul global, atenta às desigualdades espaciais. Diferentemente de Hui, Santos não trata do cosmos nem da pluralidade civilizacional das técnicas; seu foco é a produção social do espaço sob a globalização. É justamente essa especificidade que o torna mais operacional.


Espaço como sistema de objetos e sistema de ações. Para Santos, o espaço é “um conjunto indissociável, solidário e também contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações” (SANTOS, 2006). A formulação antecipa, em vocabulário geográfico, a estrutura sociomaterial das infraestruturas digitais: a plataforma é simultaneamente um sistema de objetos (servidores, interfaces, bases de dados, geolocalização) e um sistema de ações (publicações, deslocamentos, cálculos, curadoria). A infraestrutura digital situada pode ser reescrita como um arranjo específico de objetos e ações em que a leitura do território permanece possível.


Meio técnico-científico-informacional (MTCI). Santos nomeia o período atual como o do meio técnico-científico-informacional, em que a informação se torna estruturante da produção do espaço e em que “a instantaneidade e a simultaneidade dos eventos” caracterizam um espaço apreendido em tempo real (SANTOS, M. apud SEABRA et al. Estudos Geográficos, UNESP. Disponível em: https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/estgeo/article/download/16754/12701/). O feed algorítmico e as cartografias operacionais são manifestações maduras do MTCI: o conceito de infraestrutura digital situada localiza-se dentro do diagnóstico miltoniano, como indagação sobre o que resta de leitura situada quando o informacional se torna dominante.


Verticalidades × horizontalidades — o eixo mais produtivo. Para Santos, o espaço contemporâneo agrupa simultaneamente verticalidades e horizontalidades (SANTOS, 2006). As verticalidades são vetores de ações hegemônicas que chegam ao território “de cima para baixo”, a serviço de atores distantes — “uma vontade longínqua” — e produzem desordem nos lugares, pois a ordem que criam é em seu próprio benefício (SANTOS, M. O retorno do território. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/ppgdtsa/files/2014/10/Texto-Santos-M.-O-retorno-do-territorio.pdf). As horizontalidades são as relações de contiguidade no território, o “espaço do acontecer solidário”. Essa oposição mapeia com precisão a distinção central do conceito: o feed algorítmico e a cartografia operacional são verticalidades (organizam o território por critérios exógenos e opacos), enquanto a leitura situada do feed geolocalizado e a negociação humano-humano diante do mapa comum são horizontalidades (relações de proximidade entre sujeitos implicados). A dessituação é, nesse vocabulário, a sobreposição da verticalidade informacional sobre a horizontalidade do lugar.


Espaços luminosos × opacos. Santos distingue os espaços “luminosos” — densos em técnica, ciência e informação — dos “opacos”, à margem dessa luminosidade (SANTOS, 2006). A categoria precisa a “espacialidade opaca” do conceito: a opacidade do feed algorítmico não é a opacidade miltoniana da margem técnica, mas uma opacidade de segundo grau, produzida pelo excesso de mediação, e não pela sua ausência.


A força do lugar. Santos atribui ao lugar uma potência de resistência: a “força do lugar” reside na união orgânica que enfrenta as grandes corporações, no lugar como “espaço do acontecer solidário” e contrapoder à globalização tomada como fábula e perversidade (SANTOS, M. apud MST. A força do lugar. Disponível em: https://mst.org.br/2026/05/04/a-forca-do-lugar-o-centenario-de-milton-santos-e-a-reforma-agraria-popular/). Aqui está a articulação política do conceito: a infraestrutura digital situada não é apenas condição técnica a preservar, mas expressão da força do lugar no domínio infocomunicacional.


PARTE IV — SÍNTESE

13. Formulação integrada do conceito

O conceito de infraestrutura digital situada articula três camadas teóricas, cada uma respondendo a uma pergunta distinta. A camada fenomenológica e sociotécnica (situacionismo, mídias locativas, estudos de plataforma, Certeau) descreve o que é a leitura situada e como ela se dissolve nas três frentes — temporal, espacial e relacional. A camada cosmopolítica (Hui) responde por que a dessituação importa civilizacionalmente: ela é uma instância do urbanismo digital recursivo que apaga a localidade em favor da episteme universal. A camada geográfica (Santos) fornece o aparato para operacionalizar a análise: sistemas de objetos e ações, MTCI, verticalidades e horizontalidades, espaços luminosos e opacos, força do lugar.


A formulação integrada mais rigorosa do conceito pode então ser enunciada assim:


A infraestrutura digital situada é o arranjo de objetos e ações, no interior do meio técnico-científico-informacional, em que a horizontalidade do lugar resiste à verticalidade algorítmica — preservando a coincidência entre localização, temporalidade e situação como uma forma, no domínio infocomunicacional urbano, daquilo que Hui chama de localidade e Santos chama de força do lugar.


Nessa formulação, as três tradições não competem, mas se complementam: Haraway e Suchman dão a carga epistemológica de “situado”; Hui dá o porquê civilizacional da localidade; Santos dá o como espacial e político. O conceito permanece, por fim, um instrumento analítico e crítico — permite distinguir, no interior de um mesmo aparato técnico, os regimes que sustentam a situação daqueles que a dissolvem, e oferece um vocabulário para disputar o desenho das plataformas em favor de uma leitura territorial novamente situada.



Referências (ABNT)

BARNS, Sarah. Introduction to platform urbanism. In: Handbook of Platform Urbanism. Cheltenham: Edward Elgar Publishing, 2025. Disponível em: https://www.elgaronline.com/edcollchap/book/9781035313761/chapter1.xml. Acesso em: 4 jun. 2026.


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SUCHMAN, Lucy. Plans and situated actions: the problem of human-machine communication. Cambridge: Cambridge University Press, 1987.



Notas de rigor para uso formal

  1. Citações de Tecnodiversidade (Hui):

extraídas do PDF (edição Ubu, trad. Humberto do Amaral, 2020). Inserir os números de página exatos da edição impressa antes de submissão.

  1. Citações de Milton Santos: confirmadas em fontes

secundárias que citam A natureza do espaço (2006) e O retorno do território (1994). Localizar as passagens nas edições originais e inserir o número de página — em especial “sistema de objetos e sistema de ações”, “verticalidades e horizontalidades” e “espaços luminosos e opacos”, concentradas em A natureza do espaço. A citação da “força do lugar” provém de texto de divulgação do MST; ancorar na fonte primária antes de uso acadêmico.

  1. Recepção brasileira de Hui (Fanfa): a leitura

conjunta de Hui, Milton Santos e Álvaro Vieira Pinto é construção da literatura nacional; não atribuí-la ao próprio Hui.

  1. Verificação de ausência do termo: a afirmação de

originalidade vale para as bases consultadas; recomenda-se checagem complementar no Google Scholar e no Catálogo de Teses da CAPES, com aspas exatas, antes de reivindicar ineditismo em texto formal.