Urbanismo Programático Orientado por Infraestrutura e Paisagem: para além da rua como elemento estruturador da cidade
Urbanismo Programático Orientado por Infraestrutura e Paisagem: para além da rua como elemento estruturador da cidade
Introdução
Grande parte das cidades contemporâneas foi produzida a partir de uma lógica espacial baseada na rua, na quadra e no lote. A infraestrutura viária constitui o principal elemento organizador do território, condicionando a localização dos edifícios, a distribuição dos usos e os padrões de mobilidade. Nesse modelo, a forma urbana é estruturada por redes viárias e o automóvel assume papel central na articulação entre moradia, trabalho, consumo e lazer.
Entretanto, os desafios contemporâneos relacionados às mudanças climáticas, à expansão dispersa das cidades, ao consumo intensivo de solo, aos custos de infraestrutura e à dependência automotiva têm motivado a busca por modelos alternativos de urbanização. Nesse contexto, emerge a possibilidade de uma cidade pós-carro, na qual a infraestrutura de transporte coletivo deixa de ser apenas um suporte para deslocamentos e passa a atuar como elemento estruturador da ocupação territorial.
A hipótese discutida neste texto propõe uma inversão da lógica urbanística convencional. Em vez de ruas, quadras e lotes organizarem a urbanização, a própria infraestrutura de mobilidade coletiva, articulada à paisagem e a uma programação tridimensional dos usos, passa a constituir a espinha dorsal da cidade.
Da cidade parcelada à cidade programada
O urbanismo moderno e contemporâneo foi amplamente construído sobre o paradigma do parcelamento do solo.
Nesse modelo, a sequência tradicional pode ser representada da seguinte forma:
Território
↓
Sistema viário
↓
Quadras
↓
Lotes
↓
Edificações
↓
Usos
O programa urbano aparece como consequência da geometria do parcelamento.
A hipótese aqui discutida propõe uma lógica distinta:
Território
↓
Paisagem
↓
Infraestrutura
↓
Programa
↓
Forma construída
Nesse caso, a ocupação não decorre da subdivisão fundiária, mas da articulação entre infraestrutura, paisagem e programa.
A cidade deixa de ser organizada por lotes e passa a ser organizada por sistemas.
A rua deixa de ser o elemento estruturador
A rua constitui uma das principais invenções espaciais da urbanização ocidental. Ela organiza fluxos, distribui acessos, estrutura o parcelamento e estabelece a relação entre espaço público e espaço privado.
Na hipótese da cidade pós-carro, entretanto, a rua deixa de desempenhar esse papel estruturador.
A infraestrutura de transporte coletivo assume essa função.
O eixo estruturador pode ser um monotrilho, um VLT, uma ferrovia regional, um sistema automatizado de transporte ou qualquer infraestrutura capaz de organizar acessibilidade de forma eficiente.
Ao longo desse eixo desenvolve-se uma estrutura habitada contínua, adaptada à topografia e articulada à paisagem.
A urbanização deixa de expandir-se horizontalmente por meio de ruas e loteamentos e passa a desenvolver-se por meio de corredores programáticos de ocupação.
Programação espacial tridimensional
Uma das consequências mais relevantes dessa transformação é a substituição do zoneamento bidimensional por uma programação espacial tridimensional.
Enquanto o urbanismo convencional separa funções em áreas distintas da cidade, a programação tridimensional permite a coexistência simultânea de múltiplos usos.
Exemplo simplificado:
| Nível | Programa
Cobertura Parque linear, produção de energia e infraestrutura verde - Superior Habitação - Intermediário Educação, serviços e espaços de trabalho - Eixo central Transporte coletivo estruturador - Inferior Drenagem, corredores ecológicos e infraestrutura ambiental } Nesse modelo, transporte, habitação, trabalho, lazer e infraestrutura ambiental tornam-se partes integrantes de uma mesma estrutura espacial. Matriz conceitual para análise e projetoA compreensão desse tipo de urbanização pode ser organizada por meio de uma matriz conceitual.
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