Rede Metropolitana
Rede Metropolitana Pós-Carro e Mobilidade sobre Trilhos
Conceito do Plano
A proposta fundamenta-se nos princípios do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS), estratégia que visa integrar o planejamento urbano ao de transportes para mitigar a dependência do automóvel particular (Cervero, 1998; EMBARQ Brasil, 2015). O objetivo central é promover a transição de um território fragmentado e disperso, rompendo com o atual modelo urbano "3D" (cidades distantes, dispersas e desconectadas), para a lógica de uma "cidade pós-carro", estruturando um arranjo metropolitano que seja essencialmente "3C": compacto, conectado e coordenado (IDB, 2021). Essa abordagem reconhece que a rua é um espaço social e um recurso público contínuo, devendo priorizar a escala humana, a diversidade de usos e a mobilidade coletiva (Jacobs, 1961; Gehl, 2010).
O eixo estruturante da intervenção baseia-se em prover condições equitativas de mobilidade em diferentes escalas. A nível regional, busca-se garantir a macroacessibilidade, compreendida como a facilidade de atravessar o espaço metropolitano e acessar grandes oportunidades descentralizadas (Vasconcellos, 2001; Kneib e Mello, 2017), conectando rapidamente Belo Horizonte, Nova Lima, Raposos e Sabará através de modais de média e alta capacidade (trens e expansão do metrô). Paralelamente, atua-se na mesoacessibilidade, que abrange a ligação funcional entre os bairros periféricos e as centralidades intermunicipais, utilizando sistemas alimentadores adaptáveis, como teleféricos e monotrilhos, para vencer barreiras topográficas e fundos de vale (Zegras, 2005; Mello e Kneib, 2017).
O epicentro dessa profunda integração territorial é a implantação de uma megaestação na tríplice fronteira municipal. Esta infraestrutura é concebida teoricamente sob o modelo "Nó-Lugar", que pressupõe o equilíbrio necessário entre a forte provisão de infraestrutura de uma rede de transporte e a demanda gerada pelo uso do solo adjacente (Bertolini, 1999; Andrade, 2015). Assim, a estação transcende a sua função física de baldeação e conexão ágil de longas distâncias (a função de Nó, como na ligação intermunicipal), passando a atuar simultaneamente como um polo de altíssima vitalidade, concentrando atividades, comércio, serviços e adensamento misto no seu entorno imediato (a função de Lugar).
Ao assumir esse duplo papel, a estação e a ferrovia consolidam-se como agentes urbanizadores ativos, funcionando como um verdadeiro "entre-lugar", um espaço de alteridade, de encontro de diferentes realidades que desconstroem hierarquias e superam o isolamento e a segregação impostos pelos limites geográficos e municipais (Serpa, 2007). Ao equilibrar a provisão de mobilidade de alta capacidade com o desenvolvimento local sustentável, o plano atrai vitalidade urbana "24x7", instiga novos padrões de apropriação do território e democratiza, efetivamente, o direito à cidade (Lefebvre, 1991; Serpa, 2007). ```
Delimitação da área do plano
O Setor 3 compreende áreas estratégicas para a implantação de uma rede de mobilidade metropolitana integrada entre Belo Horizonte, Nova Lima, Raposos e Sabará. A delimitação considera os principais eixos de conexão entre centralidades urbanas e áreas periféricas, incluindo corredores de transporte, fundos de vale e áreas próximas a infraestruturas ferroviárias existentes. Possibilitando assim a: [Arquivo:2026-06-23 mapa de transporte metropolitano.png|thumb|]
- Integração entre metrô, monotrilho, teleféricos e linhas férreas reativadas
- Criação de pontos de interseção multimodal e de uma nova centralidade regional próxima às fronteiras entre Belo Horizonte, Nova Lima, Raposos e Sabará.
Objetivos do plano
Objetivo Geral: Promover a transição para uma cidade pós-carro, estruturando um recorte metropolitano integrado e capaz de ampliar a acessibilidade, reduzir os tempos de deslocamento e fortalecer as conexões entre áreas periféricas e centralidades consolidadas. A proposta busca expandir o acesso a oportunidades de trabalho, educação, lazer e serviços por meio de uma mobilidade coletiva mais eficiente, equitativa e sustentável.
Objetivos Específicos:
- Consolidar uma rede multimodal integrada: articular sistemas de média e alta capacidade com modos alimentadores e percursos qualificados para pedestres e ciclistas, favorecendo deslocamentos mais acessíveis e confortáveis em diferentes escalas.
- Transformar as estações em centralidades urbanas: estimular a diversidade de usos, a vitalidade cotidiana e a aproximação entre moradia, trabalho, comércio, serviços e espaços de convivência, fortalecendo a autonomia local e a vida urbana.
- Associar mobilidade e qualificação ambiental: incorporar infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza capazes de melhorar o conforto bioclimático, contribuir para a drenagem urbana e reforçar a adaptação climática do território.
- Promover maior equidade territorial: superar barreiras impostas pela topografia e pela fragmentação metropolitana, ampliando o acesso da população às oportunidades urbanas e fortalecendo as conexões entre Belo Horizonte, Nova Lima, Raposos e Sabará.
Diretrizes do Plano: Reestruturação Intermunicipal Pós-Carro
- Diretriz 1: Macroacessibilidade Estruturante nos Eixos fronteiriços ao Fundo de Vale. Estruturar corredores de transporte de média e alta capacidade (monotrilhos e trens) que respeitem a geomorfologia local, conectando o polo consolidado do BH Shopping às cidades vizinhas sem depender do sistema rodoviário saturado. A transformação do Anel Rodoviário em Anel Ferroviário e a inserção de uma linha de trem na base da Serra do Curral servirão como o tronco metropolitano principal de macroacessibilidadeda região, desviando o fluxo que hoje estrangula as rodovias de acesso a Nova Lima e Sabará.
- Diretriz 2: A Estação e a Ferrovia como Agentes Urbanizadores e "Nó-Lugar". Planejar e implementar todas as estações do sistema de mobilidade sob a perspectiva do modelo "Nó-Lugar". A infraestrutura ferroviária e a própria estação devem atuar ativamente como um agente urbanizador, induzindo o desenvolvimento econômico da região e instigando novos formatos e padrões de ocupação do solo antes não aproveitados [1, 2]. Cada estação deve transcender a função de ser apenas um ponto de acesso e baldeação na rede de transportes, assumindo também a identidade de uma área específica da cidade com concentração de infraestruturas, espaços abertos e dinâmica própria [3]. Toda estação deve ter a competência de equilibrar a oferta de transportes com a demanda gerada pelo uso do solo, conectando-se diretamente aos aspectos e condicionantes do território em questão. Dessa forma, as estações atuarão como minicentralidades em rede, recebendo adensamento misto e espaços públicos que dialoguem com a vizinhança, diluindo a fragmentação territorial sem se restringir a um único centro.
- Diretriz 3: Mesoacessibilidade Vertical para Vencer a Topografia. Dada a topografia acidentada do território, utilizar teleféricos e sistemas alimentadores de menor capacidade para realizar a "mesoacessibilidade" vertical. O objetivo é conectar as comunidades isoladas nas encostas (como áreas periféricas de Sabará e Nova Lima) diretamente às estações estruturantes localizadas nos fundos de vale, garantindo que bairros segregados pelo relevo tenham acesso rápido à rede ferroviária e de monotrilho.
- Diretriz 4: Microacessibilidade e os "5Ds" nos Polos Locais. Aplicar os princípios de Desenvolvimento Orientado ao Transporte (TOD) com base nos "5Ds" (Densidade, Diversidade, Desenho urbano, Destino acessível e Disponibilidade de transporte) no raio de caminhada (cerca de 500m) das estações propostas. As estações próximas ao Sport Club Olaria (Nova Lima), Supermercados BH (Raposos) e Vila Marzagão (Sabará) devem ter suas vias redesenhadas para a escala do pedestre, com fachadas ativas no nível térreo, mobiliário acessível e eliminação de barreiras físicas.
- Diretriz 5: Integração da Mobilidade à Infraestrutura Verde e Azul. Tratar a mobilidade em sinergia com os ecossistemas locais, especialmente o Rio das Velhas e a Serra do Curral. A infraestrutura de transporte deve incorporar soluções baseadas na natureza para mitigar ilhas de calor e inundações sazonais, transformando as áreas de mobilidade em corredores ecológicos contínuos.
Diagrama Esquemático da Rede Metropolitana sobre Trilhos
A consolidação da lógica "3C" (compacto, conectado e coordenado) proposta no Conceito do Plano depende da legibilidade do sistema de transporte como um todo. Para isso, foi desenvolvido um diagrama esquemático no formato de mapa de rede, reunindo as nove camadas de mobilidade sobre trilhos identificadas no território: Metrô, Linhas 1, 2 e 3, Monotrilho, VLT, Trem de carga/passageiros, Trem de passageiros e Linhas de teleférico. Mais do que uma representação geográfica fiel, o diagrama prioriza a topologia das conexões: a forma como cada modal se articula com os demais, evidenciando os pontos de transferência que materializam o modelo "Nó-Lugar" discutido nas Diretrizes do Plano. As estações em destaque (Calafate, Lagoinha, Sta. Teresa, Vila Mazagão, Parque, Lobo-Guará, Velhas e BH Shopping) correspondem aos nós de integração intermodal que estruturam a macro e a mesoacessibilidade da região, servindo como referência espacial para o Programa Básico Integrado das Estações detalhado a seguir.
Programa Básico Integrado das Estações na Serra do Curral
A proposta adota como principal referência os sistemas metropolitanos que utilizam a ferrovia como um indutor e elemento estruturador do território, transformando as estações em núcleos de desenvolvimento urbano sustentável e não apenas em pontos de embarque. Busca-se superar a visão da infraestrutura apenas como um ponto de acesso à rede, equilibrando-a com a criação de um ambiente de alta vitalidade, adensamento e diversidade de usos em seu entorno imediato. Essa abordagem atua como uma ferramenta para reverter a lógica de metrópoles dispersas e desconectadas, consolidando complexos urbanos compactos, conectados e coordenados.
Nesse contexto, o Programa Básico Integrado das Estações na Serra do Curral estabelece uma matriz programática destinada a orientar a implantação de uma rede articulada de estações ao longo do território. Estruturado a partir de uma estação-modelo, o programa define diretrizes espaciais, funcionais e urbanas que servem como referência para os demais equipamentos, permitindo adaptações às especificidades de cada contexto sem comprometer a unidade e a coerência do sistema.
A flexibilidade do modelo busca assegurar o atendimento simultâneo a diferentes escalas de mobilidade, contemplando tanto a macroacessibilidade, por meio da conexão eficiente entre centralidades metropolitanas, quanto a mesoacessibilidade, ao favorecer a integração com os bairros e os deslocamentos locais de caráter capilar. Complementarmente, as adaptações territoriais incorporam estratégias de infraestrutura verde e azul e outras soluções baseadas na natureza, contribuindo para a manutenção dos serviços ecossistêmicos, a qualificação da paisagem e a preservação dos atributos ambientais da Serra do Curral, reconhecida como um território de elevada relevância ecológica, cultural e paisagística.
Mais do que um conjunto de edificações de transporte, as estações são entendidas como infraestruturas cívicas e metropolitanas, capazes de promover mobilidade, permanência, integração territorial e qualificação do espaço urbano. Para isso, os projetos priorizam a escala humana, adotando percursos seguros para modais ativos e fachadas ativas no nível térreo, o que fomenta a diversidade e a vigilância natural . Ao transcenderem a função utilitária, esses equipamentos deixam de ser cenários monumentais de passagem para abrigarem práticas sociais cotidianas, democratizando o acesso às oportunidades e consolidando uma vivência urbana mais inclusiva e igualitária.
A partir disso foi gerado a proposta de Programa de Mobilidade para as estações:
Tabela-síntese do Programa Básico Obrigatório da Estação Intermodal
Programa Especifico das Estações de Monotrilho na Serra do Curral

Para além da função de transporte, a linha de monotrilho foi pensada como uma oportunidade de promover novos usos e atividades ao longo da Serra do Curral. Dentre as linhas propostas, foi selecionado um trecho para o desenvolvimento de um programa urbanístico, ambiental e infraestrutural mais detalhado, devido à sua capacidade de conectar Belo Horizonte, Nova Lima e Sabará, além de atravessar áreas de grande relevância paisagística e turística. A partir das características de cada localidade, além do programa básico, foram propostos programas complementares às estações, buscando valorizar as potencialidades existentes e estimular atividades ligadas à cultura, ao turismo, à gastronomia, ao esporte e ao lazer.

Espaço Cultutral Estação MapuchoA adoção de espaços híbridos ganha especial relevância na Estação BH Shopping, atuando como uma resposta urbana direta ao perfil do seu entorno imediato. Localizada em uma centralidade de borda fortemente marcada pela dependência rodoviária, por condomínios fechados e espaços exclusivos de consumo, a região carece historicamente de praças cívicas e equipamentos culturais de acesso público e gratuito. Nesse cenário, o projeto subverte a lógica da segregação socioespacial e do consumo mercantilizado (Serpa, 2007), propondo que a própria infraestrutura de mobilidade atue como o principal polo cultural da área. Ao incorporar galerias, exposições de arte e espaços para eventos comunitários, a cultura atua como um poderoso "instrumento de humanização" (Sandrin, 2018) dos imensos fluxos de passageiros. Assim, a Estação BH Shopping transcende a sua função utilitária de baldeação, consolidando-se como um contraponto público essencial ao centro comercial adjacente. Integrado visual e fisicamente à paisagem da Serra do Curral, o equipamento deixa de ser um mero vetor de passagem para se tornar um autêntico polo de destino, democratizando o direito à cidade e inserindo a cultura no cotidiano de um território historicamente privatizado.
Proposta de Programa para as 4 Estações de Monotrilho da Linha da Serra do Curral:
Programa Básico das Estações de Monotrilho na Serra do Curral
Sistema Básico Construtivo Estação BH Shopping

O sistema construtivo da Estação BH Shopping foi desenvolvido a partir de uma malha modular de 12,00 × 12,00 m, que organiza a estrutura, os fluxos e a distribuição dos programas. A subdivisão em módulos de 6,00 m e 3,00 m proporciona maior flexibilidade na ocupação dos espaços, permitindo diferentes configurações conforme as necessidades de cada ambiente.
Na Estação BH Shopping, a modulação também orienta a setorização do programa, separando as áreas de transporte, circulação, comércio, administração e, principalmente, os equipamentos de cultura e lazer, que assumem papel central na proposta. Essa organização facilita a circulação dos usuários e cria espaços públicos de permanência e convivência. A mesma lógica pode ser aplicada às demais estações da linha, adaptando os programas às características de cada local sem perder a identidade do sistema.
Paisagismo e Infraestrutura Verde-Azul
O projeto paisagístico da estação multimodal é concebido como uma infraestrutura ambiental integrada, capaz de articular mobilidade, biodiversidade, drenagem urbana e conforto bioclimático. A proposta estabelece uma conexão ambiental entre as áreas construídas e o território, atuando como um amortecedor ecológico por meio da introdução de vegetação nativa da Serra do Curral e dos domínios do Cerrado, organizada em diferentes estratos arbóreos, arbustivos, herbáceos e de forração.
Biodiversidade e Suporte à Fauna
A composição vegetal foi estruturada para garantir a oferta contínua de flores, frutos e sementes ao longo do ano, ampliando a disponibilidade de recursos para a fauna urbana. Dessa forma, o paisagismo passa a desempenhar função ecológica ativa, contribuindo para a manutenção dos processos naturais e para o fortalecimento da conectividade ecológica no território metropolitano.
Distribuição da Vegetação
A vegetação é organizada em conjuntos biodiversos adaptados às demandas funcionais e fenomenológicas de cada setor da estação:

- Praças de entrada — espécies ornamentais nativas voltadas à construção de identidade paisagística e qualificação da experiência de chegada (Mulungu, Ipê-amarelo, Ipê-roxo, Angico-vermelho).
- Áreas de permanência — espécies frutíferas e produtoras de sementes que ampliam o sombreamento e a oferta de recursos para a fauna (Pitangueira, Uvaia, Gabiroba).
- Áreas de alimentação — espécies floríferas atrativas para polinizadores e capazes de qualificar os espaços de convivência (Caliandra, Quaresmeira, Ipê-rosa, Cambará).
- Taludes e encostas — espécies nativas com elevada capacidade de fixação dos solos, contribuindo para a estabilização das encostas e redução dos processos erosivos (Capixingui, Pau-jacaré, Aroeira-pimenteira).
Infraestrutura Verde e Gestão das Águas
A diversidade de estratos vegetais desempenha papel fundamental na gestão das águas pluviais. A combinação entre árvores, arbustos, herbáceas e forrações aumenta o atrito superficial, reduz a velocidade do escoamento e favorece a infiltração da água no solo. Como complemento, são previstas valetas vegetadas, dispositivos de desaceleração hídrica e outras soluções baseadas na natureza voltadas ao controle da erosão e à qualificação da drenagem local.
Conforto Bioclimático
O paisagismo responde às condicionantes climáticas da região por meio da utilização de espécies adaptadas ao clima local e da criação de áreas com diferentes níveis de insolação e sombreamento. Espécies caducifólias, como ipês e mulungus, permitem maior incidência solar durante os meses frios e proporcionam sombra durante o verão, contribuindo para a redução das ilhas de calor e para a melhoria do conforto ambiental ao longo de todo o ano.
Descarbonização e Adaptação Climática
A ampliação da cobertura vegetal contribui diretamente para a descarbonização da mobilidade metropolitana. A associação entre transporte coletivo de média e alta capacidade, aumento da permeabilidade do solo, incremento da arborização urbana e fortalecimento da infraestrutura ecológica transforma a estação em um equipamento capaz de integrar mobilidade, adaptação climática e qualificação ambiental em uma única estratégia territorial.
Bibliografia Geral e Obras Citadas
- ANDRADE, G. T. Sistema ferroviário e a promoção da mobilidade sustentável: uma análise da inclusão espacial das favelas. 2015. 145 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Transportes) – COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015.
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