Novas Centralidades: mudanças entre as edições
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''Aurores: Giulia Pinheiro Ruy, Rayane Gomes Costa e Davi Nunes Neto Lopes'' | |||
Palavras-chave: [[Reabilitação de brownfield]]; [[Recuperação pós-mineração]]; [[Áreas mineradas]]; [[Fechamento de Mina]]; [[Centralidade]]; [[Planejamento territorial]]; [[Desenvolvimento urbano sustentável]]; [[Infraestrutura verde]]; [[Serra do Curral]]; [[Planejamento territorial]]; | |||
= Parque Pós-Mineração e Novas Centralidades Urbanas = | = Parque Pós-Mineração e Novas Centralidades Urbanas = | ||
== Conceito do plano == | == Conceito do plano == | ||
O plano se fundamenta em conceitos de planejamento | O plano se fundamenta em uma abordagem integrada entre forma urbana e desempenho territorial, articulando conceitos contemporâneos de planejamento com ferramentas analíticas orientadas por dados. Além disso, parte do entendimento de que o desenho urbano não deve apenas responder a condicionantes existentes, mas antecipar cenários e estruturar o território de maneira propositiva, conciliando ocupação, infraestrutura e meio ambiente. Nesse sentido, o projeto apoia-se em dois eixos conceituais principais: o Urbanismo da Paisagem, como forma espacial, e a análise de comportamento e desempenho urbano, como método de dimensionamento. | ||
==== Urbanismo da Paisagem ==== | ==== Urbanismo da Paisagem ==== | ||
O Urbanismo da Paisagem (Landscape Urbanism) trata a paisagem como infraestrutura estruturadora do território. Nesse sentido, os espaços livres e áreas verdes deixam de ser elementos residuais e | O Urbanismo da Paisagem (Landscape Urbanism) trata a paisagem como infraestrutura estruturadora do território (WALDHEIM, 2016).<ref>'''WALDHEIM, Charles.''' ''Landscape as Urbanism: A General Theory''. Princeton: Princeton University Press, 2016.</ref> Essa abordagem emerge como resposta às limitações do urbanismo moderno, no qual os modelos formais e determinados se mostram insuficientes diante da complexidade, instabilidade e escala dos fenômenos urbanos atuais. Em contraposição a uma lógica compositiva baseada em objetos fixos, o Urbanismo da Paisagem introduz uma visão processual, na qual o projeto urbano é concebido como um sistema aberto, dinâmico e adaptativo, capaz de absorver transformações ao longo do tempo. Além disso, é uma crítica à disciplina, frequentemente reduzida a um papel secundário, atuando como suporte cenográfico para ambientes concebidos e instrumentalizados por outras áreas. Essa condição restringe seu potencial crítico e operativo, esvaziando sua capacidade de atuar como agente estruturador do território<ref>'''CORNER, James (org.)'''. ''Recovering landscape: essays in contemporary landscape architecture''. New York: Princeton Architectural Press, 1999.</ref> (CORNER,1999). | ||
Nesse sentido, os espaços livres e áreas verdes deixam de ser elementos residuais e assumem papel organizador da ocupação urbana. Os sistemas naturais, como topografia, drenagem, cobertura vegetal e fluxos ecológicos, orientam a ocupação urbana, definindo limites, hierarquias e relações espaciais. Mais do que a presença do verde, esse conceito implica a leitura dos sistemas naturais como base para a estruturação do tecido urbano, orientando continuidades e articulando a dinâmica entre cheios e vazios. Nesse modelo, a infraestrutura ambiental, como retenção e infiltração de águas pluviais, corredores ecológicos e áreas de amortecimento, é concebida simultaneamente como espaço público e como suporte funcional da cidade. | |||
Experiências que exemplificam a aplicação dos princípios do Urbanismo da Paisagem ao estruturarem o território a partir de processos ecológicos, infraestruturais e do uso urbano de forma dinâmica: | |||
O '''[https://www.oma.com/projects/downsview-park Downsview Park],''' em Toronto, no Canadá, é um projeto desenvolvido a partir da transformação de uma antiga área militar e aeroportuária em um parque urbano de grande escala. Concebido a partir de um concurso internacional, por '''Rem Koolhaas (OMA)''' em colaboração com '''James Corner''', não foi concebido como um desenho finalizado, mas como um sistema em constante construção. O projeto organiza o território a partir de grandes faixas e sistemas, como áreas de vegetação, infraestruturas e zonas de uso, que não são fixas, mas pensadas para evoluir, se sobrepor e se transformar. A ideia central não é desenhar um parque acabado, mas criar uma estrutura capaz de orientar ocupações futuras. | |||
O '''[https://www.internationale-bauausstellungen.de/en/history/1989-1999-iba-emscher-park-a-future-for-an-industrial-region/ Emscher Landscape Park],''' desenvolvido na região do Ruhr no contexto do IBA Emscher Park, corresponde à requalificação de uma extensa região industrial no vale do Ruhr, na Alemanha. Nele, 117 projetos de planejamento paisagístico e desenvolvimento urbano, abrangendo mais de 800 quilômetros quadrados, foram implementados para a renovação ecológica, econômica e cultural da antiga região industrial. Os projetos da IBA foram agrupados em seis temas centrais: trabalho no parque, novas construções e modernização de conjuntos habitacionais, renovação ecológica do sistema Emscher, promoção do desenvolvimento urbano e estímulos sociais para o desenvolvimento urbano, bem como o estabelecimento de uma estrutura de parque regional. Essas intervenções foram realizadas de forma integrada e distribuída no território, constituindo um sistema regional que articula infraestrutura, ecologia e uso urbano como base para a transformação da paisagem pós-industrial. | |||
==== Análise de Comportamento e Desempenho ==== | ==== Análise de Comportamento e Desempenho ==== | ||
A análise de comportamento e desempenho urbano constitui um dos eixos centrais das abordagens orientadas por dados. Nessa proposta, o desenho urbano não parte de uma decisão formal ou compositiva do espaço, mas sim da leitura e quantificação das dinâmicas já existentes, como densidade populacional, mobilidade, infraestrutura e uso do solo. A exemplo disso, é a sua aplicação nas propostas para o Grand Paris desenvolvidas pelo escritório MVRDV, o chamado [https://www.mvrdv.com/projects/358/grand-paris Paris Plus Petit], que é uma das dez propostas elaboradas por equipes internacionais de arquitetura e urbanismo para imaginar o futuro da capital francesa e sua região metropolitana. | |||
Essa lógica é diretamente influenciada pelo City Calculator©, uma ferramenta conceitual desenvolvida pelo escritório que permite simular cenários urbanos a partir de indicadores mensuráveis. Por meio dessa abordagem, a cidade passa a ser compreendida como um sistema passível de análise quantitativa, no qual diferentes variáveis podem ser ajustadas para testar impactos e otimizar decisões projetuais. | |||
No contexto do Grand Paris, essa metodologia se traduz na formulação de estratégias urbanas baseadas na infraestrutura existente e na demanda urbana real, priorizando a eficiência do uso do território. Em vez de expandir de modo incontrolável a cidade, as propostas buscam identificar áreas com maior capacidade de adensamento, melhor servidas por transporte e infraestrutura, promovendo uma ocupação mais racional e sustentável. | |||
Dessa forma, o masterplan deixa de ser uma proposição rígida, passando a operar como um modelo dinâmico, construído a partir de métricas e cenários. Essa mudança garante maior coerência entre ocupação urbana e capacidade de suporte, ao mesmo tempo em que permite adaptações ao longo do tempo, conforme novas demandas e dados se tornam disponíveis. Nesse sentido, a cidade é concebida como um sistema mensurável e ajustável, no qual o desenho emerge da interação entre dados, processos e objetivos estratégicos. | |||
== Delimitação da área do plano == | == Delimitação da área do plano == | ||
[[Arquivo: | [[Arquivo:2026-06-16-mapa-de-delimitacao-setor-2.png|frame|link=http://150.164.107.115/arquivos/urb608/06_mapas/pdf/2026-06-29-mapa-de-delimitacao-setor-2.pdf|Delimitação do plano das novas centralidades. Download do PDF.]] | ||
A delimitação do plano das [http://150.164.107.115/arquivos/urb608/06_mapas/pdf/2026-06-16-mapa-de-delimita%C3%A7%C3%A3o-setor-2.pdf Novas Centralidades] abrange as áreas remanescentes da Mina de Águas Claras, bem como outras áreas mineradas da região, caracterizadas pela presença histórica da atividade mineradora e pela proximidade com importantes eixos urbanos e ambientais nos limites entre Belo Horizonte e Nova Lima. | |||
A Serra do Curral, onde se dá esse cenário, apresenta uma condição única: ao mesmo tempo em que constitui um ativo econômico historicamente explorado pela riqueza mineral, também é um ativo ambiental importante pela vegetação, animais e nascentes (CUSTÓDIO; RIBEIRO, 2021)<ref>'''CUSTÓDIO, M. M.; RIBEIRO, J. C. J. J.''' ''SERRA DO CURRAL: SIGNIFICADOS E IMPORTÂNCIA DE PROTEÇÃO.'' Veredas do Direito – Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, v. 18, n. 42, 2021.</ref>. Nesse sentido, a atividade minerária, ao longo de décadas, foi responsável por profundas transformações na vertente sul da serra, reconfigurando sua morfologia, hidrologia e dinâmicas ambientais. | |||
A Mina de Águas Claras, operada pela antiga MBR (Minerações Brasileiras Reunidas), estendeu-se da década de 1970 até se exaurir em 2006, sendo uma das principais áreas de extração de minério de ferro na região. Desde então, a área encontra-se em processo vinculado ao Plano de Fechamento de Mina, sob diretrizes patrimoniais e ambientais, incluindo a atuação do IEPHA-MG. Esse processo, porém, não se restringe à recuperação técnica do sítio, mas envolve disputas e reflexões mais amplas sobre a destinação do território. | |||
No que tange às áreas mineradas da região, a Mina Corumi, no Taquaril, se trata de uma exploração mineral que ocorreu de maneira mais fragmentada e com menor escala em relação à Mina de Águas Claras, mas igualmente responsável por impactos significativos na paisagem local. Atualmente, essas áreas apresentam condições de degradação ambiental e instabilidade geomorfológica, configurando-se como espaços potenciais para ações de recuperação e requalificação. Desse modo, destaca-se a existência de diversas outras áreas mineradas na região passíveis de requalificação, ampliando as possibilidades de atuação futura e reforçando o entendimento do território como um conjunto de vazios estratégicos a serem reintegrados às dinâmicas ambientais e urbanas. | |||
Como resultado desse processo, o território apresenta, atualmente, extensos vazios gerados pelas áreas degradadas, caracterizadas por grandes taludes, platôs artificiais e encostas. Apesar de marcados pela degradação, esses espaços revelam um potencial estratégico para requalificação territorial, dada sua proximidade com áreas urbanizadas, como os bairros Belvedere e Vila da Serra, além de sua inserção em uma zona de transição entre o tecido urbano consolidado e importantes áreas de preservação ambiental. Tal conexão territorial é estabelecida pelos arredores do topo da Serra do Curral com unidades de conservação relevantes, como o Parque da Serra do Curral e o Parque das Mangabeiras. Sendo assim, a atuação do Setor 2 deriva da potencialidade de articulação entre sistemas ecológicos e urbanos, podendo atuar como um corredor ambiental e paisagístico, ao mesmo tempo em que se apresenta como espaço de mediação local entre processos de preservação e pressões de urbanização. | |||
== Objetivos do plano == | == Objetivos do plano == | ||
| Linha 34: | Linha 61: | ||
* Priorizar soluções urbanas que incentivem o transporte coletivo, os deslocamentos ativos e a redução do uso do automóvel; | * Priorizar soluções urbanas que incentivem o transporte coletivo, os deslocamentos ativos e a redução do uso do automóvel; | ||
* Concentrar as ocupações em áreas estabilizadas de menor sensibilidade ambiental; | * Concentrar as ocupações em áreas estabilizadas de menor sensibilidade ambiental; | ||
* Preservar as áreas inundáveis, os topos de morro e eixos de drenagem natural como infraestruturas ecológicas | * Preservar as áreas inundáveis, os topos de morro e eixos de drenagem natural como infraestruturas ecológicas nos limites do território; | ||
* Desenvolver uma ocupação de baixa verticalização integrada à topografia e à paisagem da Serra do Curral; | * Desenvolver uma ocupação de baixa verticalização integrada à topografia e à paisagem da Serra do Curral; | ||
* Distribuir equipamentos públicos e centralidades de bairro de forma uniforme; | * Distribuir equipamentos públicos e centralidades de bairro de forma uniforme; | ||
* Estimular a diversidade social e funcional por meio da não implantação de condomínios fechados e da priorização de espaços públicos acessíveis; | * Estimular a diversidade social e funcional por meio da não implantação de condomínios fechados e da priorização de espaços públicos acessíveis; | ||
* Garantir a conectividade | * Garantir a conectividade entre áreas verdes e espaços livres, de forma a compor a paisagem urbana | ||
== Programa Urbanístico-Ambiental-Infraestrutural == | == Programa Urbanístico-Ambiental-Infraestrutural == | ||
=== Bairro - Parque Águas Claras === | |||
[[Arquivo:MAPA GERAL - LEGENDA.png|frame|link=http://150.164.107.115/arquivos/urb608/07_imagens/diagramas/2026-06-29-Mapa-geral-setor-2.png|Implantação Geral do Bairro-Parque. Download do PNG.]] | |||
O Bairro-Parque Águas Claras surge como a materialização projetual dos eixos teóricos que fundamentam este plano, consolidando-se como um modelo propositivo de desenvolvimento sustentável para territórios pós-mineração. A proposta parte do entendimento de que os processos de regeneração territorial nessas áreas devem articular ocupação urbana, preservação paisagística e infraestrutura ecológica, conciliando o desenvolvimento urbano metropolitano com a conservação da Serra do Curral. | |||
Sob essa perspectiva, o projeto busca reverter o cenário de degradação ambiental decorrente da atividade minerária por meio de uma ocupação consciente, compacta e de baixa verticalização, estruturada a partir de três conceitos fundamentais: o diálogo entre urbanização e paisagem, inspirada nos princípios do Urbanismo da Paisagem (Landscape Urbanism); a promoção da vitalidade urbana por meio da qualificação do espaço público coletivo; e a integração de diferentes modais coletivos, como estratégia para estruturar a acessibilidade e reduzir a dependência do transporte individual motorizado. | |||
Nesse contexto, propõe-se a criação de um bairro-parque estruturado pela coexistência entre áreas residenciais, comerciais, de serviços e institucionais, associadas a equipamentos públicos e amplos espaços livres, tendo a paisagem como elemento estruturador da ocupação. Diferentemente dos modelos tradicionais de expansão urbana observados em Belo Horizonte, a proposta estabelece uma ocupação compacta, integrada à topografia e de baixa verticalização, priorizando a mobilidade ativa, a diversidade funcional e a conexão permanente entre cidade e natureza. Nesse sentido, a articulação entre sistemas de transporte, como os transportes sobre trilhos, o teleférico e a mobilidade ativa, permite organizar a ocupação a partir de eixos de conectividade sustentáveis, ampliando o acesso ao território e reduzindo a dependência do transporte individual motorizado, ao mesmo tempo em que reforça a relação entre mobilidade, forma urbana e desempenho ambiental. | |||
O novo bairro é concebido como um território capaz de articular uma nova centralidade urbana à um parque implantado no entorno da cava, constituindo um sistema contínuo de espaços públicos, áreas verdes e infraestruturas ambientais que reforçam a identidade paisagística da Serra do Curral e contribuem para a construção de uma nova relação entre urbanização e meio ambiente. | |||
=== Organização Espacial === | |||
[[Arquivo:Critério_1_-_Área_Verdes_Preservadas_-_LEGENDA.png|frame|link=http://150.164.107.115/arquivos/urb608/07_imagens/diagramas/2026-06-29-crit%C3%A9rio1-areas-verdes-preservadas.png|Diagrama da Infraestrutura Ambiental. Download do PNG.]] | |||
[[Arquivo:Critério_2_-_Modais_de_Transporte_e_Estações_-_Legenda.png|frame|link=http://150.164.107.115/arquivos/urb608/07_imagens/diagramas/2026-06-29-crit%C3%A9rio2-modais-de-transporte.png|Diagrama de Mobilidade. Download do PNG.]] | |||
[[Arquivo:Critério_3_-_Áreas_Edificáveis_-_Legenda.png|frame|link=http://150.164.107.115/arquivos/urb608/07_imagens/diagramas/2026-06-29-crit%C3%A9rio3-areas-edificaveis.png|Diagrama das Áreas Edificáveis. Download do PNG.]] | |||
A organização espacial do bairro-parque se estrutura a partir de dois sistemas estruturadores, a infraestrutura ambiental e o sistema de mobilidade, e das áreas edificáveis, definidas como resultantes da interação entre esses sistemas. | |||
A '''infraestrutura ambiental''' constitui o sistema fundamental do projeto, assumindo a função de estruturar a ocupação a partir das condicionantes naturais do território. Sua forma se estabelece pela delimitação e preservação das áreas de maior sensibilidade ambiental, como encostas com alta declividade, bordas do lago, remanescentes de vegetação nativa e zonas de transição entre o ambiente urbano e as áreas naturais. Como consequência, esse sistema define os limites e diretrizes para a ocupação, garantindo a proteção dos sistemas ecológicos, contribuindo para a regulação ambiental, como drenagem e microclima, e configurando uma base contínua de espaços livres que orienta toda a organização espacial do bairro-parque. | |||
=== Análise de Comportamento | O '''sistema de mobilidade''' atua como elemento articulador do território, tendo como função promover acessibilidade e integração entre diferentes partes do projeto e sua relação com o entorno metropolitano. Sua forma se materializa na implantação complementar de diferentes modais, como o ferroviário, o monotrilho, o teleférico, o viário e as redes de mobilidade ativa, distribuídos de acordo com suas especificidades técnicas e inserção territorial. Como consequência, estabelece-se uma rede de conectividade que estrutura os fluxos sem fragmentar o espaço, induz centralidades, amplia o acesso às áreas de interesse ambiental e reduz a dependência do transporte individual motorizado, reforçando a relação entre mobilidade e forma urbana. | ||
A partir da análise dos padrões de comportamento urbano e desempenho territorial observados | |||
Por fim, as '''áreas edificáveis''' configuram-se como resultantes espaciais da interação entre a infraestrutura ambiental e o sistema de mobilidade, tendo como função acomodar os usos urbanos de forma integrada ao território. Sua forma é definida pela ocupação dos vazios remanescentes, de forma a reduzir os impactos, uma vez que prioriza a reutilização de áreas já anteriormente degradadas pela atividade minerária, evitando a expansão sobre porções preservadas da paisagem. Dessa maneira, é evitado o parcelamento excessivo do solo e se privilegia uma distribuição mais dispersa e adaptada à topografia. Como consequência, promove-se um modelo de urbanização mais permeável e caminhável, com maior continuidade espacial entre áreas construídas e espaços livres, favorecendo a diversidade de usos, a convivência social e a integração entre o urbano e o natural. | |||
=== Análise de Comportamento === | |||
Para a estimativa da infraestrutura do Bairro-parque Águas Claras, adotou-se como referência um bairro consolidado de Belo Horizonte, cujos dados de área total, população e densidade foram utilizados como parâmetros para a definição da volumetria e da ocupação do novo território. O bairro selecionado foi o Belvedere, localizado na divisa com Nova Lima (Vila da Serra). A partir da análise dos padrões de comportamento urbano e desempenho territorial observados nesse contexto, estabelece-se, de forma sintética, um conjunto de parâmetros orientadores para a formulação do programa urbanístico do Bairro-parque Águas Claras. Essa abordagem permite a transposição de referências consolidadas para um novo contexto, adaptando-as às especificidades locais e às diretrizes projetuais adotadas. Foram considerados como parâmetros os seguintes dados do bairro Belvedere, com base no IBGE (2010):<ref>'''INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE).''' ''Censo Demográfico 2010: resultados do universo''. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: IBGE – Censo Demográfico 2010. Acesso em: 16 jun. 2026.</ref> | |||
* '''Área total:''' aproximadamente 2,87 km² (287 ha) | * '''Área total:''' aproximadamente 2,87 km² (287 ha) | ||
* '''População prevista:''' aproximadamente 7.800 habitantes | * '''População prevista:''' aproximadamente 7.800 habitantes | ||
* '''Densidade populacional:''' aproximadamente 2.680 hab/km² | * '''Densidade populacional:''' aproximadamente 2.680 hab/km² | ||
=== Uso Residencial === | ==== Uso Residencial ==== | ||
* '''População atendida:''' 7.800 habitantes | * '''População atendida:''' 7.800 habitantes | ||
* '''Índice volumétrico adotado:''' 150 m³/habitante | * '''Índice volumétrico adotado:''' 150 m³/habitante | ||
| Linha 68: | Linha 113: | ||
* 7.800 habitantes × 150 m³/habitante | * 7.800 habitantes × 150 m³/habitante | ||
* '''Volumetria total:''' 1.170.000 m³ = 0,00117 km³ | * '''Volumetria total:''' 1.170.000 m³ = 0,00117 km³ | ||
=== | '''Quantificação das unidades residenciais:''' | ||
{| class="wikitable" | |||
!Parâmetro | |||
! align="right" |Valor | |||
|- | |||
|População prevista | |||
| align="right" |'''7.800 habitantes''' | |||
|- | |||
|Número de edifícios | |||
| align="right" |'''120''' | |||
|- | |||
|Habitantes por edifício | |||
| align="right" |'''65''' | |||
|- | |||
|Volume de cada edifício | |||
| align="right" |'''9.750 m³''' | |||
|- | |||
|Moradores por unidade | |||
| align="right" |'''3''' | |||
|- | |||
|Unidades por edifício | |||
| align="right" |'''22 (média)''' | |||
|- | |||
|Pavimentos por edifício | |||
| align="right" |'''3''' | |||
|- | |||
|Unidades por pavimento | |||
| align="right" |'''7 a 8''' | |||
|- | |||
|Área por unidade | |||
| align="right" |'''52 m²''' | |||
|} | |||
==== Uso Comercial e de Serviços ==== | |||
* '''Área construída:''' 440.000 m² | * '''Área construída:''' 440.000 m² | ||
* '''Referência construtiva:''' 4 metros por pavimento | * '''Referência construtiva:''' 4 metros por pavimento | ||
| Linha 77: | Linha 154: | ||
* 440.000 m² × 4 m | * 440.000 m² × 4 m | ||
* '''Volumetria total:''' 1.760.000 m³ = 0,00176 km³ | * '''Volumetria total:''' 1.760.000 m³ = 0,00176 km³ | ||
'''Quantificação das unidades comerciais e de serviços:''' | |||
Foram considerados cerca de 20 edifícios distribuídos ao longo da implantação e além dos edifícios apenas comerciais e de serviço, os edifícios residenciais podem receber pavimentos térreos comerciais. | |||
==== Equipamentos Públicos e Institucionais ==== | |||
* '''Área construída:''' 150.000 m² | * '''Área construída:''' 150.000 m² | ||
* '''Referência construtiva:''' 4 metros por pavimento | * '''Referência construtiva:''' 4 metros por pavimento | ||
| Linha 86: | Linha 166: | ||
* 150.000 m² × 4 m | * 150.000 m² × 4 m | ||
* '''Volumetria total:''' 600.000 m³ = 0,00060 km³ | * '''Volumetria total:''' 600.000 m³ = 0,00060 km³ | ||
'''Quantificação dos equipamentos públicos e institucionais:''' | |||
Foram considerados cerca de 10 edifícios distribuídos ao longo da implantação e além dos edifícios apenas de uso institucional, os edifícios residenciais podem receber pavimentos térreos que contemplem o uso institucional. | |||
== Programa Tipologias-Uso == | == Programa Tipologias-Uso == | ||
=== | === Volumetrias Arquitetônicas === | ||
[[Arquivo:2026-06-29-Implantação-Bairro-parque-Águas-Claras.jpeg.jpeg|frame|link=http://150.164.107.115/arquivos/urb608/07_imagens/ia_geradas/2026-06-29-Implanta%C3%A7%C3%A3o-Bairro-parque-%C3%81guas-Claras.jpeg|Implantação do bairro-parque Águas Claras. Download do PNG.]] | |||
* | [[Arquivo:2026-06-29-Estudo-escala-humana-Bairro-parque-Águas-Claras.jpeg.jpeg|frame|link=http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/ia_geradas/2026-06-29-Estudo-escala-humana-Bairro-parque-%C3%81guas-Claras.jpeg|Escala humana do bairro Águas Claras. Download do PNG.]] | ||
* | |||
* | Tendo em vista as diretrizes projetuais estabelecidas para o bairro-parque Águas Claras junto às métricas resultantes da análise de comportamento e desempenho, possibilita-se a experimentação volumétrica dos caminhos possíveis para implantação no terreno. Nesse contexto, são determinados alguns parâmetros que irão nortear as projeções: | ||
* '''Habitação Coletiva / Multifamiliar''': visa uma ocupação mais eficiente no uso do solo, reduzindo a expansão horizontal sobre áreas ambientalmente sensíveis. Essa tipologia favorece a diversidade social, otimiza a infraestrutura urbana e contribui para consolidar uma centralidade compacta, de uso misto e bem servida por transporte coletivo e equipamentos públicos. | |||
* '''Edificações de Usos Mistos:''' contribui para a criação de um bairro mais dinâmico e acessível, reunindo habitação, comércio, serviços e áreas de convivência. Em oposição ao modelo de condomínios fechados, a proposta prioriza a permeabilidade urbana, a conexão com o entorno e a qualificação dos espaços públicos, promovendo uma ocupação mais sustentável, inclusiva e integrada à cidade; | |||
* '''Altimetria máxima de 12 metros:''' o projeto adota tipologias com altura máxima de 12 metros, de forma a preservar a visada para a Serra do Curral que se ergue nos arredores do bairro-parque. A aplicação da altimetria máxima de 12 m está condicionada à implantação de usos mistos na edificação, encorajados a se conectarem com os espaços livres. Na medida em que a edificação se enquadre apenas como residencial, a altimetria pode atingir 12 m, caso adote soluções como pilotis ou áreas de fruição, caso contrário, é limitada a 9 m. A limitação da altura das edificações reduz o impacto visual sobre a paisagem da Serra do Curral e da cava da Mina de Águas Claras, favorecendo uma ocupação compatível com a escala do relevo. Edificações mais baixas demandam menor movimentação de terra em terrenos inclinados, facilitam a adaptação à topografia natural e preservam as visuais da paisagem. Além disso, reforçam a diretriz de baixa verticalização prevista pelo plano. | |||
* '''Fachadas Ativas:''' o uso de fachadas ativas fortalece a relação entre edifício e espaço público, estimulando a permanência, a circulação de pedestres e a segurança urbana pelo uso contínuo das ruas. A incorporação de comércio, serviços e usos comunitários no térreo de algumas edificações contribui para a criação de uma centralidade viva, reduzindo deslocamentos e incentivando a mobilidade ativa. | |||
* '''Pilotis:''' o uso de pilotis permite que o térreo permaneça permeável e integrado aos espaços públicos, reduzindo barreiras físicas e favorecendo a continuidade dos percursos de pedestres. Em terrenos inclinados, possibilitam menor interferência na topografia natural, diminuindo cortes e aterros e preservando a drenagem superficial. Também criam áreas sombreadas de convivência e ampliam a ventilação natural. | |||
* '''Áreas de Lazer e Convivência:''' podem ser implantados playgrounds, academias ao ar livre, mobiliários modulares para encontros e pequenos eventos, mesas comunitárias e espaços de contemplação voltados para a paisagem. Em conjunto com a arborização e infraestrutura verde, esses equipamentos ajudam a criar ambientes mais humanizados e seguros, estimulando o uso coletivo e reforçando a identidade urbana na Mina de Águas Claras como um bairro aberto, ativo e integrado à paisagem natural. | |||
* '''Ciclovias:''' a implantação de ciclovias na rede urbana atende à diretriz de priorização da mobilidade ativa e da redução da dependência do automóvel. A bicicleta, ou meios alternativos compatíveis, torna-se uma forma de locomoção eficiente para conectar locais, equipamentos públicos, o parque, o nó multimodal e as áreas de uso misto, promovendo deslocamentos sustentáveis e melhoria da qualidade ambiental. | |||
== Imagens, mapas, croquis e fotos == | == Imagens, mapas, croquis e fotos == | ||
Materiais produzidos pelo grupo e armazenados no File Browser: | |||
'''Mapas''' | |||
*[http://150.164.107.115/upload/files/06_mapas/pdf/2026-06-16-mapa-de-delimita%C3%A7%C3%A3o-setor-2.pdf Mapa de Delimitação da Área do Plano] | |||
'''Imagens''' | |||
*http://150.164.107.115/upload/files/ | * [http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/diagramas/2026-06-29-Mapa-geral-setor-2.png Diagrama de Implantação Geral] | ||
* http://150.164.107.115/upload/files/ | * [http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/diagramas/2026-06-29-crit%C3%A9rio1-areas-verdes-preservadas.png Diagrama de Áreas Verdes Preservadas] | ||
* [http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/diagramas/2026-06-29-crit%C3%A9rio2-modais-de-transporte.png Diagrama de Modais de Transporte] | |||
* [http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/diagramas/2026-06-29-crit%C3%A9rio3-areas-edificaveis.png Diagrama de Áreas Edificáveis] | |||
* [http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/ia_geradas/2026-06-29-Implanta%C3%A7%C3%A3o-Bairro-parque-%C3%81guas-Claras.jpeg Implantação do Bairro-parque Águas Claras] | |||
* [http://150.164.107.115/upload/files/07_imagens/ia_geradas/2026-06-29-Estudo-escala-humana-Bairro-parque-%C3%81guas-Claras.jpeg Escala humana do Bairro-parque Águas Claras] | |||
== Referências == | == Referências == | ||
[[Categoria:URB608-E]] | [[Categoria:URB608-E]] | ||
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Edição atual tal como às 11h44min de 3 de julho de 2026
Aurores: Giulia Pinheiro Ruy, Rayane Gomes Costa e Davi Nunes Neto Lopes
Palavras-chave: Reabilitação de brownfield; Recuperação pós-mineração; Áreas mineradas; Fechamento de Mina; Centralidade; Planejamento territorial; Desenvolvimento urbano sustentável; Infraestrutura verde; Serra do Curral; Planejamento territorial;
Parque Pós-Mineração e Novas Centralidades Urbanas
Conceito do plano
O plano se fundamenta em uma abordagem integrada entre forma urbana e desempenho territorial, articulando conceitos contemporâneos de planejamento com ferramentas analíticas orientadas por dados. Além disso, parte do entendimento de que o desenho urbano não deve apenas responder a condicionantes existentes, mas antecipar cenários e estruturar o território de maneira propositiva, conciliando ocupação, infraestrutura e meio ambiente. Nesse sentido, o projeto apoia-se em dois eixos conceituais principais: o Urbanismo da Paisagem, como forma espacial, e a análise de comportamento e desempenho urbano, como método de dimensionamento.
Urbanismo da Paisagem
O Urbanismo da Paisagem (Landscape Urbanism) trata a paisagem como infraestrutura estruturadora do território (WALDHEIM, 2016).[1] Essa abordagem emerge como resposta às limitações do urbanismo moderno, no qual os modelos formais e determinados se mostram insuficientes diante da complexidade, instabilidade e escala dos fenômenos urbanos atuais. Em contraposição a uma lógica compositiva baseada em objetos fixos, o Urbanismo da Paisagem introduz uma visão processual, na qual o projeto urbano é concebido como um sistema aberto, dinâmico e adaptativo, capaz de absorver transformações ao longo do tempo. Além disso, é uma crítica à disciplina, frequentemente reduzida a um papel secundário, atuando como suporte cenográfico para ambientes concebidos e instrumentalizados por outras áreas. Essa condição restringe seu potencial crítico e operativo, esvaziando sua capacidade de atuar como agente estruturador do território[2] (CORNER,1999).
Nesse sentido, os espaços livres e áreas verdes deixam de ser elementos residuais e assumem papel organizador da ocupação urbana. Os sistemas naturais, como topografia, drenagem, cobertura vegetal e fluxos ecológicos, orientam a ocupação urbana, definindo limites, hierarquias e relações espaciais. Mais do que a presença do verde, esse conceito implica a leitura dos sistemas naturais como base para a estruturação do tecido urbano, orientando continuidades e articulando a dinâmica entre cheios e vazios. Nesse modelo, a infraestrutura ambiental, como retenção e infiltração de águas pluviais, corredores ecológicos e áreas de amortecimento, é concebida simultaneamente como espaço público e como suporte funcional da cidade.
Experiências que exemplificam a aplicação dos princípios do Urbanismo da Paisagem ao estruturarem o território a partir de processos ecológicos, infraestruturais e do uso urbano de forma dinâmica:
O Downsview Park, em Toronto, no Canadá, é um projeto desenvolvido a partir da transformação de uma antiga área militar e aeroportuária em um parque urbano de grande escala. Concebido a partir de um concurso internacional, por Rem Koolhaas (OMA) em colaboração com James Corner, não foi concebido como um desenho finalizado, mas como um sistema em constante construção. O projeto organiza o território a partir de grandes faixas e sistemas, como áreas de vegetação, infraestruturas e zonas de uso, que não são fixas, mas pensadas para evoluir, se sobrepor e se transformar. A ideia central não é desenhar um parque acabado, mas criar uma estrutura capaz de orientar ocupações futuras.
O Emscher Landscape Park, desenvolvido na região do Ruhr no contexto do IBA Emscher Park, corresponde à requalificação de uma extensa região industrial no vale do Ruhr, na Alemanha. Nele, 117 projetos de planejamento paisagístico e desenvolvimento urbano, abrangendo mais de 800 quilômetros quadrados, foram implementados para a renovação ecológica, econômica e cultural da antiga região industrial. Os projetos da IBA foram agrupados em seis temas centrais: trabalho no parque, novas construções e modernização de conjuntos habitacionais, renovação ecológica do sistema Emscher, promoção do desenvolvimento urbano e estímulos sociais para o desenvolvimento urbano, bem como o estabelecimento de uma estrutura de parque regional. Essas intervenções foram realizadas de forma integrada e distribuída no território, constituindo um sistema regional que articula infraestrutura, ecologia e uso urbano como base para a transformação da paisagem pós-industrial.
Análise de Comportamento e Desempenho
A análise de comportamento e desempenho urbano constitui um dos eixos centrais das abordagens orientadas por dados. Nessa proposta, o desenho urbano não parte de uma decisão formal ou compositiva do espaço, mas sim da leitura e quantificação das dinâmicas já existentes, como densidade populacional, mobilidade, infraestrutura e uso do solo. A exemplo disso, é a sua aplicação nas propostas para o Grand Paris desenvolvidas pelo escritório MVRDV, o chamado Paris Plus Petit, que é uma das dez propostas elaboradas por equipes internacionais de arquitetura e urbanismo para imaginar o futuro da capital francesa e sua região metropolitana.
Essa lógica é diretamente influenciada pelo City Calculator©, uma ferramenta conceitual desenvolvida pelo escritório que permite simular cenários urbanos a partir de indicadores mensuráveis. Por meio dessa abordagem, a cidade passa a ser compreendida como um sistema passível de análise quantitativa, no qual diferentes variáveis podem ser ajustadas para testar impactos e otimizar decisões projetuais.
No contexto do Grand Paris, essa metodologia se traduz na formulação de estratégias urbanas baseadas na infraestrutura existente e na demanda urbana real, priorizando a eficiência do uso do território. Em vez de expandir de modo incontrolável a cidade, as propostas buscam identificar áreas com maior capacidade de adensamento, melhor servidas por transporte e infraestrutura, promovendo uma ocupação mais racional e sustentável.
Dessa forma, o masterplan deixa de ser uma proposição rígida, passando a operar como um modelo dinâmico, construído a partir de métricas e cenários. Essa mudança garante maior coerência entre ocupação urbana e capacidade de suporte, ao mesmo tempo em que permite adaptações ao longo do tempo, conforme novas demandas e dados se tornam disponíveis. Nesse sentido, a cidade é concebida como um sistema mensurável e ajustável, no qual o desenho emerge da interação entre dados, processos e objetivos estratégicos.
Delimitação da área do plano

A delimitação do plano das Novas Centralidades abrange as áreas remanescentes da Mina de Águas Claras, bem como outras áreas mineradas da região, caracterizadas pela presença histórica da atividade mineradora e pela proximidade com importantes eixos urbanos e ambientais nos limites entre Belo Horizonte e Nova Lima.
A Serra do Curral, onde se dá esse cenário, apresenta uma condição única: ao mesmo tempo em que constitui um ativo econômico historicamente explorado pela riqueza mineral, também é um ativo ambiental importante pela vegetação, animais e nascentes (CUSTÓDIO; RIBEIRO, 2021)[3]. Nesse sentido, a atividade minerária, ao longo de décadas, foi responsável por profundas transformações na vertente sul da serra, reconfigurando sua morfologia, hidrologia e dinâmicas ambientais.
A Mina de Águas Claras, operada pela antiga MBR (Minerações Brasileiras Reunidas), estendeu-se da década de 1970 até se exaurir em 2006, sendo uma das principais áreas de extração de minério de ferro na região. Desde então, a área encontra-se em processo vinculado ao Plano de Fechamento de Mina, sob diretrizes patrimoniais e ambientais, incluindo a atuação do IEPHA-MG. Esse processo, porém, não se restringe à recuperação técnica do sítio, mas envolve disputas e reflexões mais amplas sobre a destinação do território.
No que tange às áreas mineradas da região, a Mina Corumi, no Taquaril, se trata de uma exploração mineral que ocorreu de maneira mais fragmentada e com menor escala em relação à Mina de Águas Claras, mas igualmente responsável por impactos significativos na paisagem local. Atualmente, essas áreas apresentam condições de degradação ambiental e instabilidade geomorfológica, configurando-se como espaços potenciais para ações de recuperação e requalificação. Desse modo, destaca-se a existência de diversas outras áreas mineradas na região passíveis de requalificação, ampliando as possibilidades de atuação futura e reforçando o entendimento do território como um conjunto de vazios estratégicos a serem reintegrados às dinâmicas ambientais e urbanas.
Como resultado desse processo, o território apresenta, atualmente, extensos vazios gerados pelas áreas degradadas, caracterizadas por grandes taludes, platôs artificiais e encostas. Apesar de marcados pela degradação, esses espaços revelam um potencial estratégico para requalificação territorial, dada sua proximidade com áreas urbanizadas, como os bairros Belvedere e Vila da Serra, além de sua inserção em uma zona de transição entre o tecido urbano consolidado e importantes áreas de preservação ambiental. Tal conexão territorial é estabelecida pelos arredores do topo da Serra do Curral com unidades de conservação relevantes, como o Parque da Serra do Curral e o Parque das Mangabeiras. Sendo assim, a atuação do Setor 2 deriva da potencialidade de articulação entre sistemas ecológicos e urbanos, podendo atuar como um corredor ambiental e paisagístico, ao mesmo tempo em que se apresenta como espaço de mediação local entre processos de preservação e pressões de urbanização.
Objetivos do plano
- Objetivo geral: Promover uma requalificação para as áreas degradadas pela mineração da Mina de Águas Claras, por meio da proposição de um programa integrado de parque e novas centralidades urbanas que conciliem a recuperação ecológica, a mobilidade inter-regional, a preservação paisagística e um desenvolvimento urbano de uso misto.
- Objetivos específicos:
- Propor uma nova centralidade urbana na área de platô Mina de Águas Claras, que seja estruturada por usos mistos, incluindo habitação, serviços e equipamentos urbanos;
- Propor um parque nas áreas de entorno da cava da Mina de Águas Claras;
- Integrar a nova centralidade urbana ao nó multimodal e ao novo parque no entorno da cava;
- Promover a integração territorial entre a nova ocupação, o tecido urbano existente e o novo parque proposto;
- Priorizar uma mobilidade nessas novas centralidades com transporte coletivo e transporte ativo;
- Prever estratégias de recuperação ambiental e paisagísticas para o parque e a nova centralidade na Mina de Águas Claras;
- Articular na Mina de Águas Claras a urbanização e a recuperação ambiental, respeitando as condicionantes naturais, interesses de conservação e reduzindo impactos paisagísticos e ambientais.
Diretrizes do plano
- Utilizar a antiga estrutura territorial da mina de Águas Claras como suporte para a implantação da nova malha urbana e de um parque;
- Consolidar a Mina de Águas Claras como uma nova centralidade articulada a um nó multimodal;
- Promover um modelo urbano de uso misto com predominância habitacional associado a serviços, equipamentos públicos e espaços de permanência;
- Priorizar soluções urbanas que incentivem o transporte coletivo, os deslocamentos ativos e a redução do uso do automóvel;
- Concentrar as ocupações em áreas estabilizadas de menor sensibilidade ambiental;
- Preservar as áreas inundáveis, os topos de morro e eixos de drenagem natural como infraestruturas ecológicas nos limites do território;
- Desenvolver uma ocupação de baixa verticalização integrada à topografia e à paisagem da Serra do Curral;
- Distribuir equipamentos públicos e centralidades de bairro de forma uniforme;
- Estimular a diversidade social e funcional por meio da não implantação de condomínios fechados e da priorização de espaços públicos acessíveis;
- Garantir a conectividade entre áreas verdes e espaços livres, de forma a compor a paisagem urbana
Programa Urbanístico-Ambiental-Infraestrutural
Bairro - Parque Águas Claras

O Bairro-Parque Águas Claras surge como a materialização projetual dos eixos teóricos que fundamentam este plano, consolidando-se como um modelo propositivo de desenvolvimento sustentável para territórios pós-mineração. A proposta parte do entendimento de que os processos de regeneração territorial nessas áreas devem articular ocupação urbana, preservação paisagística e infraestrutura ecológica, conciliando o desenvolvimento urbano metropolitano com a conservação da Serra do Curral.
Sob essa perspectiva, o projeto busca reverter o cenário de degradação ambiental decorrente da atividade minerária por meio de uma ocupação consciente, compacta e de baixa verticalização, estruturada a partir de três conceitos fundamentais: o diálogo entre urbanização e paisagem, inspirada nos princípios do Urbanismo da Paisagem (Landscape Urbanism); a promoção da vitalidade urbana por meio da qualificação do espaço público coletivo; e a integração de diferentes modais coletivos, como estratégia para estruturar a acessibilidade e reduzir a dependência do transporte individual motorizado.
Nesse contexto, propõe-se a criação de um bairro-parque estruturado pela coexistência entre áreas residenciais, comerciais, de serviços e institucionais, associadas a equipamentos públicos e amplos espaços livres, tendo a paisagem como elemento estruturador da ocupação. Diferentemente dos modelos tradicionais de expansão urbana observados em Belo Horizonte, a proposta estabelece uma ocupação compacta, integrada à topografia e de baixa verticalização, priorizando a mobilidade ativa, a diversidade funcional e a conexão permanente entre cidade e natureza. Nesse sentido, a articulação entre sistemas de transporte, como os transportes sobre trilhos, o teleférico e a mobilidade ativa, permite organizar a ocupação a partir de eixos de conectividade sustentáveis, ampliando o acesso ao território e reduzindo a dependência do transporte individual motorizado, ao mesmo tempo em que reforça a relação entre mobilidade, forma urbana e desempenho ambiental.
O novo bairro é concebido como um território capaz de articular uma nova centralidade urbana à um parque implantado no entorno da cava, constituindo um sistema contínuo de espaços públicos, áreas verdes e infraestruturas ambientais que reforçam a identidade paisagística da Serra do Curral e contribuem para a construção de uma nova relação entre urbanização e meio ambiente.
Organização Espacial



A organização espacial do bairro-parque se estrutura a partir de dois sistemas estruturadores, a infraestrutura ambiental e o sistema de mobilidade, e das áreas edificáveis, definidas como resultantes da interação entre esses sistemas.
A infraestrutura ambiental constitui o sistema fundamental do projeto, assumindo a função de estruturar a ocupação a partir das condicionantes naturais do território. Sua forma se estabelece pela delimitação e preservação das áreas de maior sensibilidade ambiental, como encostas com alta declividade, bordas do lago, remanescentes de vegetação nativa e zonas de transição entre o ambiente urbano e as áreas naturais. Como consequência, esse sistema define os limites e diretrizes para a ocupação, garantindo a proteção dos sistemas ecológicos, contribuindo para a regulação ambiental, como drenagem e microclima, e configurando uma base contínua de espaços livres que orienta toda a organização espacial do bairro-parque.
O sistema de mobilidade atua como elemento articulador do território, tendo como função promover acessibilidade e integração entre diferentes partes do projeto e sua relação com o entorno metropolitano. Sua forma se materializa na implantação complementar de diferentes modais, como o ferroviário, o monotrilho, o teleférico, o viário e as redes de mobilidade ativa, distribuídos de acordo com suas especificidades técnicas e inserção territorial. Como consequência, estabelece-se uma rede de conectividade que estrutura os fluxos sem fragmentar o espaço, induz centralidades, amplia o acesso às áreas de interesse ambiental e reduz a dependência do transporte individual motorizado, reforçando a relação entre mobilidade e forma urbana.
Por fim, as áreas edificáveis configuram-se como resultantes espaciais da interação entre a infraestrutura ambiental e o sistema de mobilidade, tendo como função acomodar os usos urbanos de forma integrada ao território. Sua forma é definida pela ocupação dos vazios remanescentes, de forma a reduzir os impactos, uma vez que prioriza a reutilização de áreas já anteriormente degradadas pela atividade minerária, evitando a expansão sobre porções preservadas da paisagem. Dessa maneira, é evitado o parcelamento excessivo do solo e se privilegia uma distribuição mais dispersa e adaptada à topografia. Como consequência, promove-se um modelo de urbanização mais permeável e caminhável, com maior continuidade espacial entre áreas construídas e espaços livres, favorecendo a diversidade de usos, a convivência social e a integração entre o urbano e o natural.
Análise de Comportamento
Para a estimativa da infraestrutura do Bairro-parque Águas Claras, adotou-se como referência um bairro consolidado de Belo Horizonte, cujos dados de área total, população e densidade foram utilizados como parâmetros para a definição da volumetria e da ocupação do novo território. O bairro selecionado foi o Belvedere, localizado na divisa com Nova Lima (Vila da Serra). A partir da análise dos padrões de comportamento urbano e desempenho territorial observados nesse contexto, estabelece-se, de forma sintética, um conjunto de parâmetros orientadores para a formulação do programa urbanístico do Bairro-parque Águas Claras. Essa abordagem permite a transposição de referências consolidadas para um novo contexto, adaptando-as às especificidades locais e às diretrizes projetuais adotadas. Foram considerados como parâmetros os seguintes dados do bairro Belvedere, com base no IBGE (2010):[4]
- Área total: aproximadamente 2,87 km² (287 ha)
- População prevista: aproximadamente 7.800 habitantes
- Densidade populacional: aproximadamente 2.680 hab/km²
Uso Residencial
- População atendida: 7.800 habitantes
- Índice volumétrico adotado: 150 m³/habitante
- Altimetria máxima: 9 metros
- Referência construtiva: pavimentos com pé-direito médio de 3 metros
Área residencial total:
- 7.800 habitantes × 150 m³/habitante ÷ 9 m (habitações coletivas de 3 pavimentos)
- Mancha de ocupação residencial: 130.000 m²
Volumetria residencial total:
- 7.800 habitantes × 150 m³/habitante
- Volumetria total: 1.170.000 m³ = 0,00117 km³
Quantificação das unidades residenciais:
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| População prevista | 7.800 habitantes |
| Número de edifícios | 120 |
| Habitantes por edifício | 65 |
| Volume de cada edifício | 9.750 m³ |
| Moradores por unidade | 3 |
| Unidades por edifício | 22 (média) |
| Pavimentos por edifício | 3 |
| Unidades por pavimento | 7 a 8 |
| Área por unidade | 52 m² |
Uso Comercial e de Serviços
- Área construída: 440.000 m²
- Referência construtiva: 4 metros por pavimento
Volumetria comercial total:
- 440.000 m² × 4 m
- Volumetria total: 1.760.000 m³ = 0,00176 km³
Quantificação das unidades comerciais e de serviços:
Foram considerados cerca de 20 edifícios distribuídos ao longo da implantação e além dos edifícios apenas comerciais e de serviço, os edifícios residenciais podem receber pavimentos térreos comerciais.
Equipamentos Públicos e Institucionais
- Área construída: 150.000 m²
- Referência construtiva: 4 metros por pavimento
Volumetria institucional total:
- 150.000 m² × 4 m
- Volumetria total: 600.000 m³ = 0,00060 km³
Quantificação dos equipamentos públicos e institucionais:
Foram considerados cerca de 10 edifícios distribuídos ao longo da implantação e além dos edifícios apenas de uso institucional, os edifícios residenciais podem receber pavimentos térreos que contemplem o uso institucional.
Programa Tipologias-Uso
Volumetrias Arquitetônicas


Tendo em vista as diretrizes projetuais estabelecidas para o bairro-parque Águas Claras junto às métricas resultantes da análise de comportamento e desempenho, possibilita-se a experimentação volumétrica dos caminhos possíveis para implantação no terreno. Nesse contexto, são determinados alguns parâmetros que irão nortear as projeções:
- Habitação Coletiva / Multifamiliar: visa uma ocupação mais eficiente no uso do solo, reduzindo a expansão horizontal sobre áreas ambientalmente sensíveis. Essa tipologia favorece a diversidade social, otimiza a infraestrutura urbana e contribui para consolidar uma centralidade compacta, de uso misto e bem servida por transporte coletivo e equipamentos públicos.
- Edificações de Usos Mistos: contribui para a criação de um bairro mais dinâmico e acessível, reunindo habitação, comércio, serviços e áreas de convivência. Em oposição ao modelo de condomínios fechados, a proposta prioriza a permeabilidade urbana, a conexão com o entorno e a qualificação dos espaços públicos, promovendo uma ocupação mais sustentável, inclusiva e integrada à cidade;
- Altimetria máxima de 12 metros: o projeto adota tipologias com altura máxima de 12 metros, de forma a preservar a visada para a Serra do Curral que se ergue nos arredores do bairro-parque. A aplicação da altimetria máxima de 12 m está condicionada à implantação de usos mistos na edificação, encorajados a se conectarem com os espaços livres. Na medida em que a edificação se enquadre apenas como residencial, a altimetria pode atingir 12 m, caso adote soluções como pilotis ou áreas de fruição, caso contrário, é limitada a 9 m. A limitação da altura das edificações reduz o impacto visual sobre a paisagem da Serra do Curral e da cava da Mina de Águas Claras, favorecendo uma ocupação compatível com a escala do relevo. Edificações mais baixas demandam menor movimentação de terra em terrenos inclinados, facilitam a adaptação à topografia natural e preservam as visuais da paisagem. Além disso, reforçam a diretriz de baixa verticalização prevista pelo plano.
- Fachadas Ativas: o uso de fachadas ativas fortalece a relação entre edifício e espaço público, estimulando a permanência, a circulação de pedestres e a segurança urbana pelo uso contínuo das ruas. A incorporação de comércio, serviços e usos comunitários no térreo de algumas edificações contribui para a criação de uma centralidade viva, reduzindo deslocamentos e incentivando a mobilidade ativa.
- Pilotis: o uso de pilotis permite que o térreo permaneça permeável e integrado aos espaços públicos, reduzindo barreiras físicas e favorecendo a continuidade dos percursos de pedestres. Em terrenos inclinados, possibilitam menor interferência na topografia natural, diminuindo cortes e aterros e preservando a drenagem superficial. Também criam áreas sombreadas de convivência e ampliam a ventilação natural.
- Áreas de Lazer e Convivência: podem ser implantados playgrounds, academias ao ar livre, mobiliários modulares para encontros e pequenos eventos, mesas comunitárias e espaços de contemplação voltados para a paisagem. Em conjunto com a arborização e infraestrutura verde, esses equipamentos ajudam a criar ambientes mais humanizados e seguros, estimulando o uso coletivo e reforçando a identidade urbana na Mina de Águas Claras como um bairro aberto, ativo e integrado à paisagem natural.
- Ciclovias: a implantação de ciclovias na rede urbana atende à diretriz de priorização da mobilidade ativa e da redução da dependência do automóvel. A bicicleta, ou meios alternativos compatíveis, torna-se uma forma de locomoção eficiente para conectar locais, equipamentos públicos, o parque, o nó multimodal e as áreas de uso misto, promovendo deslocamentos sustentáveis e melhoria da qualidade ambiental.
Imagens, mapas, croquis e fotos
Materiais produzidos pelo grupo e armazenados no File Browser:
Mapas
Imagens
- Diagrama de Implantação Geral
- Diagrama de Áreas Verdes Preservadas
- Diagrama de Modais de Transporte
- Diagrama de Áreas Edificáveis
- Implantação do Bairro-parque Águas Claras
- Escala humana do Bairro-parque Águas Claras
Referências
- ↑ WALDHEIM, Charles. Landscape as Urbanism: A General Theory. Princeton: Princeton University Press, 2016.
- ↑ CORNER, James (org.). Recovering landscape: essays in contemporary landscape architecture. New York: Princeton Architectural Press, 1999.
- ↑ CUSTÓDIO, M. M.; RIBEIRO, J. C. J. J. SERRA DO CURRAL: SIGNIFICADOS E IMPORTÂNCIA DE PROTEÇÃO. Veredas do Direito – Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, v. 18, n. 42, 2021.
- ↑ INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010: resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: IBGE – Censo Demográfico 2010. Acesso em: 16 jun. 2026.